A Polícia Rodoviária Federal (PRF) apreendeu, nesta segunda-feira (8), diversas peças de joalheria com forte simbolismo religioso e referências ao crime organizado, encontradas com familiares de Álvaro Malaquias Santa Rosa, o “Peixão”, chefe do Terceiro Comando Puro (TCP) e um dos traficantes mais procurados do Rio de Janeiro. A abordagem ocorreu na BR-262, em Campo Grande (MS), após alerta da Polícia Civil fluminense.
A mulher de Peixão, três filhos e um sobrinho foram detidos e levados para prestar depoimento à Polícia Federal (PF), sendo liberados no mesmo dia. Segundo a PF, não houve flagrante, já que com o grupo não foram encontradas armas, drogas ou dinheiro — apenas joias e objetos cuja autenticidade ainda será periciada.
Joias com símbolos religiosos e referências ao Complexo de Israel
Entre as peças apreendidas, chamam atenção os cordões grossos, medalhões, relógios de marca e acessórios com inscrições incomuns, que remetem ao Complexo de Israel — conjunto de cinco comunidades dominadas pela facção de Peixão na Zona Norte do Rio.
Um dos itens mais chamativos é um cordão aparentemente de ouro, com uma estrela de Davi posicionada acima de um medalhão gravado com a sigla “Israel Defense Force” (IDF), referência direta às Forças de Defesa de Israel.



A seguir, os principais significados encontrados nas peças:
• Tropa do Arão – Nome dado à quadrilha liderada por Peixão. O traficante se autointitula “Arão”, irmão de Moisés na Bíblia.
• Mano Arão – Um dos apelidos de Álvaro Malaquias Santa Rosa, usado entre criminosos. Uma das joias traz a inscrição.
• IDF – Abreviação de Israel Defense Forces. De acordo com o pesquisador Bruno Paes Manso, Peixão acredita ter recebido uma “missão divina” para restaurar o Reino de Israel no Rio de Janeiro, ideia propagada em áudios de WhatsApp atribuídos ao traficante.
• Varão de Guerra – Expressão bíblica citada em Êxodo 15:3, associada a um homem poderoso, capaz de vencer batalhas e proteger seu povo.
• Estrela de Davi – Um dos maiores símbolos do judaísmo e do Estado de Israel. Segundo tradições judaicas, o desenho era utilizado em escudos do exército do rei Davi. O símbolo foi usado também pelos nazistas para identificar judeus na Segunda Guerra Mundial.
O sobrinho de Peixão afirmou que as joias eram suas. As peças serão periciadas pela PF para confirmar autenticidade e valor.
A abordagem em Mato Grosso do Sul
A família viajava em dois veículos quando foi parada pela PRF. A polícia carioca havia informado que os carros seguiam de Campo Grande para Corumbá, na fronteira com a Bolívia. Os detidos disseram que estavam a passeio.
Sem indícios de outros crimes no momento da abordagem, todos foram liberados após depoimento.
Criação e expansão do Complexo de Israel
Peixão, chefe do TCP, domina o chamado Complexo de Israel, um conjunto de comunidades onde símbolos judaicos e referências ao Estado de Israel foram incorporados como marca territorial.
O complexo surgiu durante a pandemia, na Zona Norte do Rio. A expansão do domínio de Peixão foi marcada por imposição religiosa, desaparecimento de pessoas, implantação de barricadas e episódios violentos.
Os bairros que formam o Complexo de Israel são:
- Parada de Lucas
- Vigário Geral
- Cordovil
- Cidade Alta
- Parte de Brás de Pina
Ao todo, mais de 130 mil moradores vivem na área.
A trajetória de expansão da facção inclui:
- Décadas de domínio em Parada de Lucas
- Invasão de Vigário Geral em 2007
- Travessia da Avenida Brasil em 2016 para ocupar a Cidade Alta
- Confrontos intensos até 2017, quando a polícia prendeu 45 pessoas e apreendeu 32 fuzis
- Queima de nove ônibus e dois caminhões após a ofensiva policial, em trechos da Avenida Brasil, Washington Luiz e Linha Vermelha
As joias encontradas em MS, carregadas de simbolismos, reforçam a construção de identidade religiosa e territorial criada por Peixão para fortalecer sua liderança dentro da facção.
Fotos: Divulgação PRF









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