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Shakira e as mães solo – O gesto que expôs a solidão estrutural das mães solo atípicas no Brasil

por | maio 5, 2026 | Últimas notícias | 0 Comentários

(*) André Naves

Um show não costuma ser lembrado apenas pelas luzes, pela coreografia ou pela vibração coletiva. Ele fica na memória e nas saudades sempre que joga luzes nas esmaecidas contradições sociais existentes.
 

Foi assim no último espetáculo de Shakira, em Copacabana. De repente, a “Loba” soltou um uivo mais alto, mais poderoso… Falou das mães solo latinas, expôs os dados, os dramas concretos e a falta de Políticas Públicas. Foi além: num gesto simples, porém carregado de significados, afirmou, com empatia transparente, que era “também uma mãe solo”.
 

Naquele instante, o palco artístico cumpriu aquilo que a política institucional insiste em adiar: iluminar a solidão estrutural da maternidade solo e, dentro dela, a invisibilidade ainda mais profunda das mães atípicas — aquelas que criam filhos com deficiência ou com condições que exigem cuidado contínuo, especializado e, quase sempre, solitário.
 

O Brasil abriga 11,5 milhões de famílias chefiadas por mulheres sem cônjuge, segundo o IBGE (2022). Destas, 63% são negras. E quase metade vive com até um salário-mínimo. Esses números não ocupam manchetes, mas deveriam: eles revelam uma estrutura social que naturaliza a responsabilização isolada dessas mulheres pelo funcionamento mínimo de suas famílias.
 

O trabalho de cuidado, no Brasil, é invisível porque jamais foi reconhecido como trabalho. Não aparece no PIB, não gera contribuições previdenciárias, não dá direito a descanso. É um dos pilares silenciosos da desigualdade – e, sob a lógica patriarcal, é considerado “vocação natural” das mulheres, sobretudo das mulheres negras, que historicamente assumiram esses postos desde a escravidão.
 

Dentro desse universo já tão sobrecarregado, há um grupo que carrega ainda mais – e que permanece invisível até mesmo nas discussões sobre maternidade solo: as mães atípicas. Levantamento da Federação Brasileira das Associações de Síndrome de Down (FBASD) revela que essas mulheres realizam, em média, o dobro de horas de cuidados não remunerados por semana em comparação com outras mães.
 

A vida delas é marcada por uma tripla jornada: garantir a sobrevivência econômica da família, conduzir a gestão doméstica e executar cuidados especializados diários – terapias, reabilitações, consultas, deslocamentos longos, filas, relatórios e batalhas burocráticas sem fim.
 

Os dados reforçam a gravidade. Crianças com deficiência demandam entre três e cinco atendimentos especializados por semana, segundo o Ministério da Saúde. Apenas 1,52% das escolas públicas têm infraestrutura plenamente acessível (Censo Escolar, 2023). E 68% dos municípios não possuem equipes multidisciplinares suficientes para acompanhamento contínuo dessas crianças (IBGE, 2021).
 

A mensagem é clara: essas mães estão quase sempre sozinhas.
 

Essa solidão é reforçada pelo capacitismo estrutural, que transforma a deficiência num “problema da família” e exime o Estado de assumir responsabilidades. As barreiras vão muito além das rampas inexistentes. São arquitetônicas – calçadas quebradas, elevadores que nunca funcionam. Comunicacionais – ausência de Libras, sites inacessíveis. Educacionais – falta de formação adequada para professores. Laborais – empresas que contratam pela obrigação legal, não pela convicção da inclusão. E, sobretudo, atitudinais – o olhar que infantiliza, a dúvida sobre a autonomia, o elogio que camufla pena.
 

É nesse contexto que a fala de Shakira ganha força política. Ao iluminar essa maternidade invisibilizada, ela expôs um ponto que ainda não foi enfrentado pelo Estado brasileiro: não existe sociedade justa sem políticas públicas de cuidado.
 

A Noruega oferece um exemplo concreto: o país estruturou uma rede nacional de centros de apoio a famílias com membros com deficiência, combinando suporte terapêutico, assistência financeira e acompanhamento psicológico para cuidadores – e registrou redução significativa no abandono do mercado de trabalho por mulheres nessa condição. Cuidado, ali, é infraestrutura – tão essencial quanto esgoto, energia ou estradas.

O IPEA demonstra que o mesmo raciocínio se aplica ao Brasil: cada R$ 1 investido em políticas de cuidado retorna R$ 1,34 para a economia. Gera emprego, reduz sobrecarga feminina, aumenta produtividade e diminui custos futuros com saúde e assistência.
 

O Brasil, entretanto, mantém o cuidado como assunto privado – e, portanto, feminino. Não há licença estendida para mães atípicas. Não há rede pública suficiente de terapias. Não há apoio financeiro contínuo para essas famílias. Não há programas estruturados de saúde mental para essas mulheres. Nada que reconheça o cuidado como atividade central para o funcionamento social.
 

E é isso que transforma essas mulheres em “guerreiras”. A expressão parece elogiosa, mas carrega sua própria violência. Nenhuma mãe deveria ser guerreira para garantir o básico. O heroísmo, nesses casos, só surge quando o Estado falha. E o Estado falha sistematicamente com suas mães atípicas.
 

Shakira, com algumas palavras, alcançou o que relatórios técnicos não conseguem: ativou uma consciência coletiva. Lembrou que maternidade solo não é anomalia individual, mas consequência de estruturas. E expôs o absurdo de um país que delega às mulheres a tarefa de sustentar o cuidado de toda a sociedade enquanto nega a elas qualquer sustentação.
 

O caminho para mudar essa realidade não é segredo. Está assentado sobre medidas concretas: uma política nacional de cuidado; apoio financeiro específico para mães atípicas; acessibilidade plena nas escolas; flexibilização laboral com estabilidade; e equipes territoriais multiprofissionais de apoio.
 

O Brasil não precisa descobrir o caminho – ele já existe. Precisa apenas admitir que nenhuma sociedade se sustenta quando empurra seu futuro para os ombros cansados de quem já carrega o mundo.
 

O gesto de Shakira foi sutil, mas abriu uma rachadura. E rachaduras, quando iluminadas, tornam visível aquilo que preferíamos não ver. A pergunta que fica não é porque essas mães carregam tanto. A pergunta verdadeira é: por quanto tempo ainda aceitaremos que carreguem sozinhas aquilo que é responsabilidade de todos nós?

  • André Naves é Defensor Público Federal. Especialista em Direitos Humanos e Inclusão Social, Mestre em Economia Política, Comendador Cultural, escritor e professor. Saiba mais em www.andrenaves.com e em suas redes sociais: @andrenaves.def

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