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Do Cerrado à África: ciência busca caminhos para produzir mais alimentos em um clima extremo

por | jun 26, 2026 | Últimas notícias | 0 Comentários

Secas mais frequentes, temperaturas mais alta e a necessidade de alimentar uma população mundial crescente exigem novas soluções para a agricultura tropical.

Com 60% das terras agricultáveis ainda não exploradas do mundo, o continente africano busca adaptar tecnologias desenvolvidas no Cerrado para enfrentar a fome, gerar empregos e fortalecer a segurança alimentar, ampliando a oferta global de alimentos. A transformação do Cerrado em uma das principais regiões agrícolas do mundo pode servir de modelo para o desenvolvimento sustentável das savanas africanas, segundo Abdukrazak Ibrahim, coordenador do Fórum para Pesquisa Agrícola na África (Fara).

“Temos dois biomas semelhantes. A ciência transformou um — o Cerrado brasileiro — e pode transformar o outro — a Savana africana”, afirmou Ibrahim. Segundo o pesquisador, a África reúne cerca de 60% das terras aráveis não cultivadas do planeta e pode protagonizar a próxima grande revolução agrícola mundial. A discussão ocorreu durante o painel Meio Ambiente e Mudanças Climáticas, realizado no X Simpósio Nacional Cerrado e III Simpósio Internacional Savanas Tropicais, promovido pela Embrapa Cerrados.

O pesquisador destacou, porém, que o objetivo não é reproduzir a experiência brasileira de forma idêntica. “O objetivo não é copiar o Brasil. Precisamos adaptar as tecnologias e conhecimentos às diferentes realidades africanas, construindo soluções adequadas à diversidade do nosso continente”, explicou.

Ibrahim lembrou que a transformação da agricultura brasileira foi resultado de cinco décadas de investimento em ciência e inovação. Para a África, o desafio é urgente. De acordo com projeções da Organização das Nações Unidas (ONU), o continente deverá abrigar cerca de 2,5 bilhões de habitantes em 2050. Atualmente, os países africanos importam aproximadamente US$ 100 bilhões em alimentos por ano.

Ao mesmo tempo, ele vê um cenário promissor. A África dispõe de cerca de 600 milhões de hectares de terras agricultáveis, uma população predominantemente jovem e amplo potencial para aumentar a produtividade agrícola. “Milhões de novos empregos podem surgir a partir desse processo”, destacou.

Nesse contexto, Ibrahim ressaltou a importância da cooperação Sul-Sul e do intercâmbio de conhecimento com o Brasil. Para ele, a experiência da Embrapa, especialmente no desenvolvimento de tecnologias para ambientes tropicais, pode contribuir para acelerar a modernização da agricultura africana.

Uma das iniciativas apontadas como estratégicas é a formação de recursos humanos. Mais de 3 mil estudantes e profissionais de 20 países africanos já participaram de programas de capacitação no Brasil. O próprio Ibrahim foi bolsista na Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, em Brasília, durante o doutorado. “É possível tirar nossos países da fome. O Brasil mostrou que a transformação é viável e oferece uma experiência capaz de inspirar mudanças que podem beneficiar milhões de pessoas”, afirmou.

Segundo o coordenador da Fara, o fortalecimento da pesquisa agrícola, o investimento público de longo prazo, a melhoria genética de espécies vegetais e animais, a mecanização agrícola e a inovação tecnológica são elementos centrais para ampliar a produção de alimentos no continente. Como exemplo, ele citou avanços recentes em diferentes países africanos: a autossuficiência em trigo na Etiópia, o aumento da produção de mandioca na Nigéria, os ganhos de produtividade do milho em Gana, as plataformas digitais de agricultura no Quênia e os sistemas de gestão integrada da terra em Ruanda.

Apesar dos progressos, ainda há grande margem para crescimento. A produtividade média do milho na África é de 2,2 toneladas por hectare, enquanto produtores mais tecnificados alcançam entre 10 e 12 toneladas por hectare.

Para Ibrahim, a parceria entre Brasil e África pode ser decisiva para enfrentar os desafios da segurança alimentar global. “Há muito que a África pode aprender com o Brasil, assim como há muito que o Brasil pode aprender com a África. Juntos, podemos transformar esse potencial das savanas em realidade”, concluiu.

Como as mudanças climáticas afetam o campo e a comida na mesa dos brasileiras

Enquanto Brasil e África discutem caminhos para ampliar a produção de alimentos nas savanas tropicais, cientistas alertam que o sucesso dessa missão dependerá da capacidade de enfrentar as mudanças climáticas e conservar a biodiversidade. O aumento das temperaturas, a redução das chuvas e a degradação dos ecossistemas já afetam a agricultura, encarecem a produção e podem comprometer a segurança alimentar de milhões de pessoas nas próximas décadas.

O debate promovido pela Embrapa Cerrados no dia 23 trouxe um alerta: produzir mais alimentos no futuro dependerá da conservação dos recursos naturais e da adaptação da agropecuária a um clima cada vez mais instável.

As palestras da professora da Universidade de Brasília (UnB), Mercedes Bustamante, e do pesquisador da Fundação Getulio Vargas (FGV), Eduardo Assad, mostraram que as crises climática e de biodiversidade estão profundamente conectadas e já produzem impactos sobre a disponibilidade de água, a produtividade agrícola e a vida das populações rurais e urbanas.

Segundo Bustamante, as mudanças climáticas e a perda de biodiversidade formam “crises gêmeas” que não podem ser tratadas separadamente. Hoje, a mudança no uso da terra é o principal fator de perda de biodiversidade. Mas a cientista alerta que o aquecimento global tende a se tornar a principal causa desse problema nas próximas décadas.

“O destino do Cerrado tem impacto muito grande pela sua conectividade com todos os outros biomas brasileiros”, afirmou. Ocupando cerca de 23% do território nacional, o bioma funciona como elo entre Amazônia, Caatinga, Pantanal e Mata Atlântica, desempenhando papel fundamental na regulação climática e hídrica do país.

Estudos apresentados pela pesquisadora mostram que a conversão da vegetação nativa para outros usos já tornou o Cerrado mais quente e mais seco. Entre 2006 e 2019, houve redução de cerca de 10% na evapotranspiração — processo responsável por devolver umidade à atmosfera — e aumento da temperatura superficial em áreas de intensa expansão agrícola, especialmente na região do Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia).

“A proteção da biodiversidade passa a ser considerada uma estratégia essencial para a mitigação das mudanças climáticas”, destacou Bustamante. Segundo a professora, ecossistemas saudáveis ajudam a regular o clima, armazenar carbono, conservar a água e sustentar a produção de alimentos.

Já Eduardo Assad apresentou dados de que os efeitos das mudanças climáticas sobre a agropecuária brasileira deixaram de ser projeções para se tornarem realidade. Informações da Embrapa indicam que eventos climáticos extremos provocaram perdas acumuladas de cerca de R$ 300 bilhões na agricultura brasileira entre 2000 e 2024. “O mundo está ficando mais quente e mais seco e não estamos prestando atenção nisso. Isso compromete muito a agricultura”, afirmou.

Mapas climáticos apresentados pelo pesquisador mostram redução das chuvas, aumento da frequência das secas e elevação das temperaturas em importantes regiões produtoras do Cerrado. Em alguns locais, a estação chuvosa já encurtou em cerca de 22 dias, reduzindo a disponibilidade de água para as lavouras.

Assad alertou que a combinação entre temperaturas mais elevadas e deficiência hídrica pode comprometer culturas estratégicas para o abastecimento de alimentos. Estudos indicam, por exemplo, perdas de produtividade da soja e do milho em cenários de aquecimento e escassez de água.

Apesar dos desafios, os pesquisadores ressaltaram que existem soluções. A recuperação de pastagens degradadas, a ampla adoção de sistemas integrados de produção, como Integração Lavoura-Pecuária (ILP) e Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF), o manejo sustentável do solo, a restauração de áreas degradadas e a conservação da vegetação nativa figuram entre as estratégias capazes de aumentar a produção de alimentos de forma sustentável.

“Sem desmatamento e queimadas, o Brasil pode ser o maior sumidouro de carbono do planeta”, garantiu Assad. Para o pesquisador, o país reúne conhecimento científico, tecnologia e recursos naturais suficientes para conciliar produção agrícola, conservação ambiental e adaptação climática.

Quando preservar também gera lucro

Se o desafio é produzir mais alimentos sem ampliar o desmatamento, experiências já em andamento mostram que isso é possível. Durante o painel sobre Meio Ambiente e Mudanças Climáticas, o gerente sênior de Projetos de Sustentabilidade da Syngenta, Jonas Oliveira, apresentou resultados do programa Reverte, iniciativa que apoia a recuperação de áreas degradadas por meio de crédito, assistência técnica e adoção de boas práticas agrícolas e mostra que a recuperação de áreas degradadas, a sustentabilidade e a rentabilidade podem caminhar juntas no campo.

Segundo Oliveira, a sustentabilidade deixou de ser vista apenas como uma questão ambiental para se tornar uma estratégia de negócios. “Hoje, quando olhamos para a sustentabilidade, estamos falando da perenidade dos negócios rurais e o produtor rural já entende isso”, afirmou.

Criado em 2019, o programa reúne parceiros públicos e privados e já recuperou mais de 280 mil hectares em cerca de 400 propriedades rurais. Foram desembolsados mais de R$ 2 bilhões em financiamento para a conversão de áreas degradadas em sistemas produtivos mais sustentáveis.

Um dos exemplos apresentados foi o de uma fazenda em Itaúba (MT), que aderiu ao programa em 2021, o primeiro produtor que aderiu ao programa Reverte. A área de 4 mil hectares, anteriormente degradada, passou a adotar plantas de cobertura, manejo conservacionista do solo e rotação de culturas. Em poucos anos, passou a produzir soja, milho e algodão em níveis competitivos.

Os resultados também apareceram na rentabilidade. Segundo Oliveira, em outra propriedade atendida pelo programa, em Açailândia (MA) o faturamento da propriedade saltou de cerca de R$ 1 mil, em 2023, para R$ 10 mil por hectare ao ano. Além disso, a fazenda mantém mais de 50% de sua área com vegetação nativa preservada, realiza restauração ambiental e gera empregos diretos na região. “O programa cresce porque cria oportunidade de negócio para todos os envolvidos. O produtor ganha produtividade, reduz riscos e valoriza sua terra”, destacou.

A experiência reforça que a ciência e a inovação já oferecem caminhos para aumentar a produção agropecuária, recuperar áreas degradadas e conservar os recursos naturais, tornando sustentabilidade e rentabilidade objetivos possíveis.

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