O ICB (Instituto Conhecer Brasil), da empresária Karina Gama, contratou uma empresa de Alex Leandro Bispo dos Santos, 40, para instalar pontos de wi-fi em favelas da capital paulista. Segundo órgãos de inteligência da polícia, o empresário é membro relevante da facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital) no estado.
Karina Gama ganhou projeção como dona da Go Up Entertainment, produtora do filme “Dark Horse” (azarão, em inglês), sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). O nome da empresária também passou a ser alvo de questionamentos em razão de um contrato de R$ 108 milhões firmado entre o ICB e a gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB).
A polícia investiga se parte dos recursos do contrato com a Prefeitura de São Paulo foi desviada para a produção da obra, o que a defesa dela nega com documentos.
Foi nesse projeto com o município que a empresa de Santos, a Favela Conectada Serviço e Tecnologia Ltda., foi subcontratada pelo ICB por até R$ 12 milhões para implantação de 2.000 pontos de wi-fi em comunidades das zonas oeste e sul da capital paulista. Um extrato obtido pela Folha aponta o pagamento de R$ 2 milhões em 7 de julho de 2025.
Na ficha policial de Santos constam ao menos três condenações por roubo, que o levaram a passar por 13 presídios em quase 13 anos no sistema. As condenações somam 34 anos.
A defesa dele nega ligação com a facção criminosa. O instituto de Karina diz que desconhecia vínculos da empresa contratada, mas ressaltou que ela estava regular e não havia impedimento legal. A Prefeitura de São Paulo afirmou que sua relação jurídica ocorre exclusivamente com o ICB.
EMPRESA, PRISÕES E PROCESSOS
A empresa de Santos foi criada em 2020, com outro nome e outro objeto de atuação, pouco tempo após ele deixar a prisão. Começou com um capital de R$ 10 mil e, posteriormente, foi alterado para R$ 500 mil.
Também conhecido como Baianão, Santos acumula prisões e processos desde 2003, quando completou 18 anos. Nessa época, foi preso sob a suspeita de participar do sequestro-relâmpago de Roberto Calmon de Barros Barreto Filho, sobrinho do então senador Eduardo Suplicy (PT).
De novembro de 2012 a dezembro de 2017, por exemplo, ele ficou na Penitenciária 2 de Presidente Venceslau, no interior de São Paulo, local onde desde 2006 o governo passou a concentrar presos apontados como lideranças do PCC. Nesse mesmo período, estava na unidade Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, apontado como chefe máximo da facção criminosa.
Após ficar um período em Mirandópolis 1, Santos ganhou liberdade em novembro de 2018. No final do ano passado, porém, voltou à prisão, agora sob suspeita de feminicídio. Em novembro de 2025, segundo a investigação, ele teria jogado a namorada, Maria Katiane Gomes da Silva, 25, da sacada do 10º andar de um apartamento na Vila Andrade, região do Morumbi.
Maria Katiane aparece como testemunha em contrato firmado entre o ICB e a empresa de Santos.
Nesta nova prisão ele também foi enviado para unidade onde estão membros do PCC, em Iperó. A distribuição de presos por unidades ocorre após autodeclaração do preso sobre sua ligação com facções.
No inquérito sobre feminicídio, uma testemunha apresentou a gravação de uma discussão entre Alex Santos e Maria Katiane. No áudio, ele afirma: “tenho escorpião do PCC”, em referência a uma tatuagem.
“Alex também possui duas tatuagens, de uma carpa e de um dragão, que no contexto das facções criminosas, possui um significado. A combinação de ambos os símbolos reforça a ideia de um membro que superou grandes desafios e alcançou um status elevado ou superior dentro da facção”, diz um relatório policial.
Especialistas sobre PCC afirmam que o grupo não usa tatuagens para identificar seus membros. Alguns usam determinados símbolos por conta própria para assumirem sua ligação explícita com o crime.
OUTRO LADO
O advogado de Santos, Eugênio Malavasi, afirma que seu cliente não cometeu feminicídio e até ajudou nas investigações para demonstrar que a vítima se atirou pela janela. Segundo a defesa, o réu entregou uma assistente virtual Alexa que poderia conter informações importantes sobre o que ocorreu.
Sobre o contrato com o ICB, Malavasi disse não ter informações sobre o assunto, porque seu trabalho se limita à atuação no processo de feminicídio. Afirma, porém, que seu cliente jamais se declarou membro do PCC e nega ter ligação com o grupo. “Ele nega peremptoriamente ser membro do PCC”, disse.
Procurado, o Instituto Conhecer Brasil afirmou que a contratação da Favela Conectada, também conhecida como Urban Connect Serviços e Tecnologia Ltda., foi feita por eles, sem indicação da Prefeitura de São Paulo ou da Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia.
Segundo o instituto, a escolha da empresa levou em conta critérios técnicos, operacionais e documentais, além da experiência da companhia em áreas de alta complexidade, como comunidades. A entidade afirma que, à época, a Urban Connect apresentava documentação regular e já desenvolvia atividades de conectividade em Paraisópolis em parceria com a Surf Telecom.
“À época da contratação, o instituto não tinha conhecimento de qualquer vínculo dessa natureza, tampouco havia impedimento legal ou restrição formal que inviabilizasse a contratação da empresa ou de seu representante”, diz trecho de nota enviada à Folha.
Ainda de acordo com o instituto, Santos não chegou a implantar os 2.000 pontos de wi-fi inicialmente previstos. A entidade afirma que, após readequação promovida pela SMIT (Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia), a meta global do projeto foi reduzida de 5.000 para 3.200 pontos, o que alterou a participação dos fornecedores.
Nesse contexto, segundo o ICB, a Urban Connect ficou responsável pela implantação, manutenção e monitoramento de 908 pontos.
O instituto não informou os valores pagos à empresa. Ele disse que a remuneração ocorreu apenas pelos pontos efetivamente implantados, validados e em operação.
A Prefeitura de São Paulo informou que a Favela Conectada não atua como parceira do ICB, no âmbito do Programa WiFi Livre, desde dezembro de 2025. A SMIT diz que não há, nem houve, vínculo contratual direto entre município e a empresa ou seu administrador.
“Portanto, qualquer associação entre a Prefeitura de São Paulo e o crime organizado é irresponsável e leviana”, diz trecho da nota encaminhada pelo município.
Ainda segundo a resposta oficial, a relação jurídica da prefeitura ocorre exclusivamente com o ICB, entidade responsável pela execução da parceria. Cabe à organização parceira a contratação, gestão e fiscalização de seus fornecedores e eventuais subcontratados.
O município diz ainda que tem adotado medidas contra empresas envolvidas em suspeitas de vínculos com grupos criminosos, como ocorreu em dezembro de 2024, quando Nunes determinou o rompimento de contratos com empresas de ônibus investigadas.
Sobre o Programa WiFi Livre, a prefeitura afirma que os pontos contratados e pagos ao ICB foram instalados e seguem em funcionamento. Segundo a SMIT, não há irregularidades confirmadas até o momento nas investigações em andamento.
A secretaria afirma ainda que o termo de colaboração firmado com o ICB prevê mecanismos de fiscalização, incluindo acompanhamento de metas, indicadores de desempenho e análise da prestação de contas.
Por Folhapress
Foto: © Divulgação
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