Luiz Otávio é o paciente mais jovem a receber a polilaminina no Brasil. — Foto: Loraine França/g1 MS
O paciente mais jovem do país a receber a polilaminina, substância experimental estudada para regeneração de lesões na medula, relatou os primeiros sinais de recuperação dos movimentos apenas 12 dias após a aplicação. Luiz Otávio Santos Nunez, de 19 anos, disse que voltou a mexer a ponta de um dos dedos da mão depois do procedimento realizado no Hospital Militar de Campo Grande, em 21 de janeiro deste ano.
Militar do Exército Brasileiro, Luiz Otávio ficou tetraplégico após sofrer um ferimento por arma de fogo em outubro de 2025. Para ter acesso ao medicamento, que ainda está em fase de estudos clínicos e em análise na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a família precisou recorrer à Justiça.
“É um movimento pequeno, mas que eu não tinha antes. Eu não conseguia mexer a ponta do dedo indicador como os outros, e agora consigo”, relatou o jovem. Ele também afirma sentir atividade nos nervos das pernas, que perderam sensibilidade e movimento após o acidente. Segundo Luiz Otávio, a fisioterapia tem sido fundamental nesse processo inicial de recuperação.
A polilaminina é estudada há mais de 20 anos pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A substância é uma versão produzida em laboratório da laminina, proteína presente no desenvolvimento embrionário, responsável por auxiliar a conexão entre neurônios. Em lesões medulares, como a do jovem, as fibras nervosas são rompidas e os sinais elétricos do cérebro deixam de chegar ao corpo. A proposta do tratamento é estimular o crescimento dessas fibras, restabelecendo parte da comunicação neural.
Esperança para pacientes e familiares
A evolução inicial trouxe esperança à família. A mãe de Luiz Otávio, Viviane Goreti Ponciano dos Santos, conta que soube da polilaminina por meio de reportagens e passou a buscar alternativas após receber dos médicos a informação de que a recuperação seria longa e incerta.
“Sabíamos que seria um processo difícil, mas vimos exemplos de pessoas que apresentaram evolução e fomos atrás”, afirmou. A família, que é de Fátima do Sul, precisou se mudar para Campo Grande para acompanhar o tratamento e a rotina de fisioterapia.
Aplicação fora da janela terapêutica
A aplicação da polilaminina em Luiz Otávio ocorreu 110 dias após o acidente, período bem superior à chamada janela terapêutica prevista no protocolo do estudo, que indica aplicação em até 72 horas após a lesão medular. A autorização excepcional foi concedida pelo laboratório Cristália, parceiro da UFRJ responsável pela produção da substância.
Segundo a pesquisadora Tatiana Sampaio, do Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ, ainda não é possível afirmar se aplicações fora do prazo ideal terão efeitos significativos. Ela ressalta que lesões crônicas apresentam maior dificuldade de regeneração e que os estudos ainda não permitem prever resultados nem possíveis efeitos colaterais.
Procedimento e acompanhamento médico
A aplicação foi realizada em cirurgia com duração aproximada de 40 minutos, sob acompanhamento de equipes de Mato Grosso do Sul e do Rio de Janeiro. De acordo com o neurocirurgião Wolnei Marques Zeviani, que acompanha o caso, a polilaminina foi injetada acima e abaixo da lesão na vértebra C6, responsável pela tetraplegia.
O médico explica que o tratamento é indicado, neste momento, para pacientes com lesões medulares traumáticas agudas ou subagudas, geralmente com até três meses de evolução. Pessoas com lesões mais antigas, acima de seis meses ou anos, ainda não estão incluídas nos protocolos atuais.
O futuro da polilaminina
Para que a polilaminina seja aprovada e chegue à rede hospitalar e ao Sistema Único de Saúde (SUS), o medicamento ainda precisa passar por várias etapas. Entre elas estão a conclusão dos estudos de fase 1, que avaliam a segurança, além das fases 2 e 3, que analisam eficácia, dosagem e efeitos adversos em grupos maiores de pacientes.
Se aprovada, a substância será utilizada exclusivamente por meio de injeção intramedular, aplicada diretamente na medula espinhal. Segundo os pesquisadores, a polilaminina não pode ser administrada por via oral ou intravenosa devido aos riscos.
Luiz Otávio é, até o momento, o paciente mais jovem do Brasil a receber a polilaminina. O caso reforça a expectativa de milhares de pessoas que sofreram lesões na medula e veem na pesquisa científica uma possibilidade real de recuperar movimentos e qualidade de vida.

Foto: Wolnei Zerviani/Reprodução









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