O Pantanal começou a ser contado por outras vozes nesta sexta-feira (3), no Bioparque Pantanal, em Campo Grande. Em um encontro que reuniu representantes do Governo do Estado e de municípios, do Ministério da Igualdade Racial, empreendedores, comunidades tradicionais e profissionais do turismo, foram lançadas as ações estaduais de afroturismo e apresentados os resultados do Programa Rotas Negras, iniciativa do Governo Federal voltada à valorização da cultura afro-brasileira por meio do turismo. A programação também contou com a exibição do documentário Pantanal Negro, obra que transforma histórias, memórias e ancestralidade em ferramenta de reconhecimento e desenvolvimento territorial.
O evento marcou mais um passo na consolidação do afroturismo em Mato Grosso do Sul, movimento que ganhou força nos últimos anos com o trabalho da Bela Oyá Pantanal, primeira agência de afroturismo do Estado e reconhecida pelo Ministério da Igualdade Racial entre as dez melhores iniciativas do país por meio do Prêmio Rotas Negras.
Para a idealizadora da Bela Oyá Pantanal, Thayná Cambará, o trabalho desenvolvido pela agência nasceu da própria transformação vivida em seu território. “Foi esse território que me transformou. E quando ele nos transforma, temos duas escolhas: guardar essa experiência ou compartilhá-la com o mundo. Eu sempre pedi para ser mensageira, e não passageira. A Bela Oyá nasceu dessa escolha, da partilha, do desejo de compartilhar esse território, essas histórias e essa ancestralidade com outras pessoas”, afirmou.
Já o diretor-presidente da Fundação de Turismo de Mato Grosso do Sul, Bruno Wendling, ressalta que o Estado vive agora uma nova etapa desse processo: transformar essas narrativas em produtos turísticos capazes de gerar desenvolvimento para os territórios.
“O próximo passo é ampliar esse trabalho e estruturar produtos turísticos. O turismo vende experiências e emoções. Começamos esse processo com a Thayná Cambará e, depois, com o levantamento realizado pelo Guia Negro, identificando manifestações culturais, personagens e lugares. Agora é hora de transformar esse patrimônio em experiências, ampliar a oferta de serviços e atrair mais visitantes para Mato Grosso do Sul”.
Segundo Wendling, o turismo tem potencial para dar visibilidade às comunidades e fortalecer identidades historicamente pouco conhecidas. “O turismo é uma ferramenta poderosa para fortalecer comunidades, quilombos, manifestações culturais e religiões. É uma oportunidade de apresentar ao Brasil e ao mundo uma riqueza que muitas vezes ainda é desconhecida até pelos próprios sul-mato-grossenses. Poder contar essa história para quem visita nosso Estado é um grande presente”.
Ele lembra que esse movimento começou há cerca de quatro anos, quando a Fundação de Turismo conheceu o trabalho desenvolvido pela Bela Oyá Pantanal. “A oportunidade apresentada pela Thayná despertou um olhar que ainda não existia dentro da Fundação. A partir dali começamos a fortalecer esse segmento e hoje o afroturismo já ocupa um lugar central dentro das políticas de promoção e estruturação do turismo em Mato Grosso do Sul.”
A programação também apresentou o Programa Rotas Negras, política nacional coordenada pelo Ministério da Igualdade Racial que busca fortalecer iniciativas de afroturismo em todo o país.
Para a coordenadora de Articulação Interfederativa da Secretaria de Gestão do Sistema Nacional de Promoção da Igualdade Racial, Melina de Lima, Mato Grosso do Sul possui um patrimônio ancestral que precisa ser reconhecido como parte fundamental da identidade brasileira.
“É importante compreender a ancestralidade que o afroturismo revela. Antes mesmo da criação do Estado, povos de terreiro e comunidades quilombolas já ocupavam esse território. Essa riqueza ancestral faz de Mato Grosso do Sul um grande exemplo”.
Ela explica que iniciativas como Pantanal Negro representam exatamente o propósito do Programa Rotas Negras. “Esse documentário evidencia histórias que sempre existiram, mas que muitas vezes permaneceram invisíveis. O Rotas Negras nasce justamente para reconhecer, valorizar e fomentar essas iniciativas. Hoje entendemos o afroturismo como uma política pública construída de forma interinstitucional, dialogando com diferentes áreas do governo para fortalecer essas ações em todo o país”.
Durante o evento, o público também assistiu ao documentário Pantanal Negro, dirigido por Adriana Farias e Maxwell Polimanti, com idealização, direção artística e produção executiva de Thayná Cambará. O longa acompanha personagens que revelam a presença negra na construção histórica e cultural de Corumbá, mostrando como espiritualidade, memória e pertencimento seguem vivos nas comunidades pantaneiras.
Para o subsecretário de Políticas Públicas para Promoção da Igualdade Racial da Secretaria de Estado da Cidadania, Deividson Silva, a obra deixa um importante legado para Mato Grosso do Sul.
“Toda produção artística, cultural e histórica deixa caminhos para que outras histórias também sejam contadas. Pantanal Negro registra uma narrativa que durante muito tempo permaneceu invisibilizada e mostra a riqueza da cultura negra e quilombola presente em Mato Grosso do Sul. É um legado que inspira novas produções e amplia o reconhecimento da nossa diversidade”.
De acordo com o promotor de Justiça da Igualdade Racial e coordenador do Núcleo da Igualdade Racial do Ministério Público de Mato Grosso do Sul, Marcos André Sant’Ana Cardoso, o documentário também representa um instrumento de fortalecimento da luta contra o racismo e a intolerância religiosa.
“Para quem trabalha diariamente na promoção da igualdade racial, no combate ao racismo e à intolerância religiosa, Pantanal Negro é uma inspiração. O filme revela a beleza, a força, a resistência e a história das pessoas de religiões de matriz africana. Mesmo diante da discriminação e do preconceito, a fé permanece mais forte. É uma obra que inspira todos aqueles que acreditam na construção de um Brasil mais justo e plural”, destacou.
Ao reunir turismo, cultura, audiovisual e políticas públicas em um mesmo espaço, o evento reforçou que o desenvolvimento territorial também passa pelo reconhecimento das pessoas que constroem a identidade sul-mato-grossense. Mais do que apresentar novos roteiros turísticos, Mato Grosso do Sul passa a apresentar ao Brasil um Pantanal contado por quem sempre fez parte de sua história.
Foto: Kemmily Rauany








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