A Agência Nacional de Vigilância Sanitária aprovou a ampliação da indicação do Wegovy para o tratamento da gordura no fígado com inflamação associada à disfunção metabólica, condição conhecida como MASH. A decisão foi anunciada nesta segunda-feira, 15 de dezembro, e autoriza o uso do medicamento em adultos com fibrose hepática de moderada a avançada, desde que não haja cirrose.
O Wegovy é a versão da semaglutida aprovada para o tratamento da obesidade e já vinha sendo associado, em estudos recentes, a benefícios além da perda de peso. Com a nova autorização, o medicamento da farmacêutica Novo Nordisk passa a ser reconhecido oficialmente como uma opção terapêutica para uma das doenças hepáticas que mais crescem no mundo.
A aprovação se baseia nos resultados do estudo clínico Essence, de fase 3, publicado em abril de 2025. A pesquisa envolveu cerca de 1,2 mil participantes, distribuídos de forma aleatória para receber semaglutida 2,4 mg ou placebo, além do tratamento padrão, ao longo de 240 semanas. A análise mostrou que o Wegovy foi superior ao placebo na reversão da inflamação do fígado e na melhora dos níveis de fibrose.
Após 72 semanas de acompanhamento, 63% dos pacientes tratados com Wegovy apresentaram reversão completa da MASH, contra 34,3% no grupo placebo, que recebeu apenas orientações sobre alimentação e prática de exercícios. A melhora do estágio da fibrose hepática foi observada em 37% dos pacientes que usaram o medicamento, frente a 22,4% no grupo placebo. Além disso, 33% dos participantes tratados com Wegovy alcançaram simultaneamente a reversão da inflamação e a melhora da fibrose.
A gordura no fígado, chamada tecnicamente de esteatose hepática, pode ser causada tanto pelo consumo excessivo de álcool quanto por hábitos alimentares inadequados e sedentarismo. Estima-se que pelo menos 30% da população mundial conviva com o problema, que está fortemente associado ao sobrepeso e à obesidade. Oito em cada dez pessoas com excesso de peso apresentam algum grau da condição.
Quando evolui para a MASH, a doença passa a representar riscos graves à saúde, podendo levar à cirrose, ao câncer de fígado e, em casos mais avançados, à necessidade de transplante hepático. Mais de 250 milhões de pessoas vivem atualmente com MASH em todo o mundo, e a projeção é de que o número de pacientes em estágios avançados da doença dobre até 2030.
Além das complicações hepáticas, pessoas com MASH apresentam maior risco de infarto, acidente vascular cerebral e morte cardiovascular em comparação com a população geral. Um estudo publicado pela revista The Lancet em novembro aponta que a proporção de casos de câncer de fígado associados à MASH deve aumentar de 8% em 2022 para 11% até 2050.
Segundo o oncologista Ramon Andrade de Mello, do Centro Médico Paulista High Clinic Brazil, o perfil dos pacientes com câncer de fígado vem mudando. Ele explica que, no passado, a doença estava mais relacionada à hepatite viral e ao consumo excessivo de álcool, mas hoje o aumento da obesidade tornou o acúmulo de gordura no fígado um fator de risco cada vez mais relevante.
Para a Novo Nordisk, a decisão da Anvisa representa um avanço significativo. A endocrinologista Priscilla Mattar, vice-presidente da área médica da empresa no Brasil, afirma que a aprovação marca uma nova etapa no tratamento da gordura no fígado no país. Segundo ela, a possibilidade de reverter a inflamação em mais de 60% dos pacientes e ainda promover melhora da fibrose hepática pode mudar o curso de uma doença considerada silenciosa e grave.
A médica destaca ainda que o resultado reforça o compromisso de ampliar o cuidado além do tratamento da obesidade, abordando as comorbidades de forma integrada e oferecendo novas perspectivas de vida e saúde para os pacientes brasileiros.






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