Há histórias que permanecem durante séculos escondidas sob a paisagem. No Pantanal, entre rios, terreiros, comunidades quilombolas e memórias ancestrais, existe uma presença negra que ajudou a construir o território, mas que raramente ocupou o centro da narrativa. É justamente esse movimento de reconhecimento que ganha um novo capítulo na próxima sexta-feira (3), a partir das 13h30, durante o lançamento das ações estaduais de Afroturismo, no Bioparque Pantanal, em Campo Grande, durante o Julho das Pretas. A programação reúne representantes do Governo do Estado, do Ministério da Igualdade Racial, lideranças comunitárias e agentes do turismo para apresentar as estratégias do setor e exibir o documentário Pantanal Negro, obra que transforma memória em experiência e cultura em desenvolvimento.
O encontro também marca a apresentação dos resultados do Programa Rotas Negras, iniciativa do Ministério da Igualdade Racial que vem estruturando o afroturismo como política pública nacional. A proposta reconhece o turismo como ferramenta de valorização da memória afro-brasileira, geração de renda, preservação do patrimônio cultural e fortalecimento das identidades locais, articulando estados, municípios, iniciativa privada e comunidades tradicionais em torno de um modelo de desenvolvimento baseado no pertencimento e na diversidade.
Entre as experiências reconhecidas nacionalmente está a Bela Oyá Pantanal, primeira agência de afroturismo de Mato Grosso do Sul e uma das contempladas pelo Edital Rotas Negras, lançado pelo Ministério da Igualdade Racial. A iniciativa tornou-se referência ao transformar histórias, territórios e tradições afro-brasileiras em experiências turísticas, aproximando visitantes das comunidades e fortalecendo o desenvolvimento local por meio da cultura.
Com direção de Adriana Farias e Maxwell Polimanti, o longa acompanha personagens que revelam a presença negra na formação histórica e cultural de Corumbá. Entre terreiros, comunidades tradicionais, celebrações populares e memórias familiares, o documentário apresenta um Pantanal pouco conhecido pelo grande público, onde ancestralidade, espiritualidade e cotidiano se entrelaçam para contar uma história construída por quem sempre fez parte desse território.
“O documentário Pantanal Negro entra para ampliar o entendimento do que é o Pantanal e reposicionar o afroturismo como uma pauta estratégica. É sobre criar pontes entre mercado e memória, entre economia e identidade, entre o que se vende e o que precisa ser respeitado”, afirma Thayná Cambará, idealizadora da Bela Oyá Pantanal, diretora artística e produtora executiva do documentário.
Pantanal Negro escolhe acompanhar pessoas. Ao longo de 86 minutos, o longa percorre histórias de lideranças religiosas, famílias tradicionais, comunidades quilombolas e personagens que revelam como a presença negra moldou a identidade cultural de Corumbá e do Pantanal Sul-mato-grossense. A obra desloca o olhar do espectador da natureza para aqueles que sustentam, preservam e reinventam esse território diariamente.
Para a coordenadora de Articulação Interfederativa da Secretaria de Gestão do Sistema Nacional de Promoção da Igualdade Racial do Ministério da Igualdade Racial, Melina de Lima, produções como o documentário cumprem papel fundamental na consolidação dessa política. “Produções como o documentário Pantanal Negro são fundamentais porque dão visibilidade a histórias, trajetórias e patrimônios que, muitas vezes, permaneceram invisibilizados. Ao registrar e difundir essas narrativas, contribuem para ampliar o reconhecimento da presença negra na formação dos territórios brasileiros e estimulam novas iniciativas de valorização da memória e da cultura”, destaca.
O diretor-presidente da Fundação de Turismo de Mato Grosso do Sul, Bruno Wendling, avalia que o lançamento das ações representa um marco para o turismo estadual. “O afroturismo é uma possibilidade histórica de recontar a história do Pantanal e de Mato Grosso do Sul, fortalecendo identidades e dando oportunidade para que as pessoas que fazem parte dessa cultura tenham vez e voz. O turismo é essa potência capaz de proporcionar isso”, afirma. Segundo ele, o reconhecimento da Bela Oyá Pantanal consolida um novo posicionamento do Estado e demonstra que Mato Grosso do Sul reúne condições para ocupar lugar de destaque no afroturismo brasileiro e internacional.
A construção dessa agenda também é resultado da articulação entre diferentes áreas do poder público. Para o subsecretário de Políticas Públicas para Promoção da Igualdade Racial, Deividson Silva, iniciativas como o Rotas Negras fortalecem narrativas historicamente invisibilizadas. “Esse programa traz a oportunidade de dar visibilidade para pessoas que durante muito tempo foram esquecidas. Ele devolve pertencimento, ancestralidade e reconhecimento a comunidades que ajudaram a construir a história do nosso Estado”, afirma. Sobre a exibição do documentário, ele acrescenta que a obra “mostra ao Brasil e ao mundo que Mato Grosso do Sul possui um enorme potencial de afroturismo e uma narrativa ancestral que merece ser conhecida”.
Ao reunir políticas públicas, audiovisual e turismo em um mesmo espaço, o evento reafirma que desenvolvimento territorial também passa pelo reconhecimento das histórias que constituem o Estado. Se durante muito tempo o Pantanal foi apresentado apenas por suas águas, sua fauna e suas paisagens, agora ganha força uma narrativa construída pelas pessoas que fazem deste território um patrimônio vivo. E é justamente esse Pantanal negro, ancestral e profundamente humano que começa a ocupar, definitivamente, o lugar que sempre lhe pertenceu.




Serviço
Lançamento das ações estaduais de Afroturismo e apresentação do Programa Rotas Negras
Data: 3 de julho (sexta-feira)
Horário: 13h30 às 17h
Local: Bioparque Pantanal – Campo Grande (MS)
Programação da tarde
Lançamento das ações estaduais de Afroturismo de Mato Grosso do Sul;
Apresentação dos resultados do Edital Rotas Negras;
Exibição do documentário Pantanal Negro;
Apresentação da Bela Oyá Pantanal sobre as experiências de afroturismo desenvolvidas em Mato Grosso do Sul.
MS sem Racismo – Julho das Pretas
Painel de abertura
Data: 2 de julho (quinta-feira)
Horário: 17h30 às 21h30
Programação cultural
Data: 3 de julho (sexta-feira)
Horário: A partir das 18h
Local: IPHAN/MS – Rua General Mello, 23, Centro, Campo Grande (MS)
Atrações
Sarau Julho das Pretas;
Expressões Artísticas e Economia Criativa;
Feira Ziriguidum;
Exposição Coletiva;
Apresentação Cultural.







0 comentários