..::data e hora::.. 00:00:00

Sem aulas e sem apoio, férias podem virar período de exaustão para cuidadores

por | jul 1, 2026 | Últimas notícias | 0 Comentários

Ausência da rotina escolar concentra tarefas em mães, pais e responsáveis e acende alerta para a saúde mental 

As férias escolares costumam ser associadas a descanso, convivência familiar e momentos de lazer. Para muitas mães, pais e responsáveis, no entanto, o recesso pode trazer uma realidade diferente: mais tarefas, menos pausas e a sensação de estar sozinho na rotina de cuidado. Sem escola, atividades regulares e horários mais previsíveis, o dia a dia das crianças muda e, muitas vezes, toda essa reorganização recai sobre uma única pessoa.

O tema ganha relevância diante das transformações na composição das famílias brasileiras. Dados do Censo Demográfico 2022, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram que as mulheres passaram a ocupar a chefia de 49,1% dos domicílios no país, o equivalente a aproximadamente 35,6 milhões de lares. Em 2010, esse percentual era de 38,7%. No mesmo período, a participação masculina na chefia dos domicílios caiu de 61,3% para 50,9%.

O Censo 2022 também apontou aumento dos domicílios unipessoais, que passaram de 12,2% em 2010 para 18,9%, além da permanência de famílias monoparentais, em que filhos ou enteados vivem com apenas um responsável e sem cônjuge presente. Na prática, esses arranjos ajudam a explicar por que, para muitas famílias, as férias podem ampliar uma carga que já existe ao longo do ano.

A sobrecarga por trás do descanso

Segundo a psicóloga Maísa Colombo Lima, o período pode ser especialmente desafiador porque altera a rotina e concentra ainda mais demandas sobre quem já assume a maior parte dos cuidados. “A rotina muda e o cuidador passa a concentrar ainda mais tarefas. Sem escola, atividades regulares ou alguém para dividir os cuidados, o período que deveria ser de descanso pode se transformar em sobrecarga física e emocional”, explica.

Essa solidão, de acordo com a psicóloga, nem sempre está relacionada à ausência de companhia. Em muitos casos, o adulto passa o dia inteiro com a criança, mas sente que não tem com quem conversar, dividir decisões ou expressar o próprio cansaço. A sensação de isolamento nasce justamente desse contraste: há presença o tempo todo, mas pouca escuta, pouca troca e quase nenhuma possibilidade de pausa.

A frustração também pode aparecer quando existe a expectativa de que as férias tragam algum alívio. Para quem cuida sem apoio, porém, o recesso pode representar o contrário. “A expectativa pode ser: ‘Nas férias eu finalmente vou descansar’. Quando isso não acontece, podem surgir irritação, tristeza, ansiedade e sensação de injustiça”, afirma Maísa.

Culpa, cansaço e limite emocional

Entre os sinais de que o adulto está ultrapassando o próprio limite emocional estão irritação frequente, choro, dificuldade para dormir, cansaço constante, vontade de se afastar de todos, sensação de estar no automático e pensamentos como “não vou dar conta” ou “não aguento mais”. Esses sinais merecem atenção porque indicam que o desgaste deixou de ser apenas uma resposta pontual à rotina.

A culpa é outro sentimento comum entre mães, pais e responsáveis que se sentem cansados ou irritados durante as férias. Muitos se cobram por não corresponderem à imagem de um cuidado sempre paciente, leve e disponível, como se o esgotamento significasse falta de amor. Para Maísa, essa interpretação precisa ser revista. “Sentir cansaço não significa falta de amor. É importante substituir a acusação por uma compreensão mais realista: ‘Estou cansada porque estou sobrecarregada e preciso de cuidado’”, orienta.

Quando o adulto está esgotado, a relação com a criança também pode ser afetada. A paciência diminui, as respostas podem se tornar mais ríspidas e o afastamento emocional aparece como tentativa de preservação. Isso não significa que a pessoa seja uma mãe, um pai ou um responsável ruim, mas mostra que ninguém consegue sustentar o cuidado por muito tempo sem pausas, acolhimento e alguma forma de suporte.

Além das demandas práticas, há uma cobrança social para que as férias sejam sempre leves, felizes e cheias de atividades. Passeios, brincadeiras e momentos especiais aparecem como um ideal, mas nem sempre correspondem à realidade de famílias que lidam com cansaço, limitações financeiras, trabalho e ausência de ajuda. Quando a vida real não acompanha essa expectativa, quem cuida pode se sentir inadequado, mesmo fazendo o possível.

Como tornar a rotina mais possível

Para tornar a rotina menos pesada, a psicóloga recomenda reduzir expectativas, estabelecer uma programação possível, alternar atividades com momentos tranquilos e aceitar que a criança não precisa estar entretida o tempo inteiro. Também pode ajudar dividir pequenas tarefas, fazer trocas de apoio com pessoas de confiança e reservar alguns minutos do dia para si.

Quando houver necessidade de pausa, o adulto pode comunicar isso à criança de forma simples e tranquila. Frases como “eu gosto de estar com você, mas agora preciso descansar alguns minutos. Depois podemos fazer algo juntos” ajudam a ensinar que todas as pessoas têm necessidades e limites.

Maísa reforça que familiares, amigos e pessoas próximas também podem ter um papel importante no acolhimento. Uma ligação, algumas horas de companhia ou um convite para uma atividade já podem diminuir a sensação de isolamento. A sobrecarga exige atenção profissional quando o sofrimento se torna frequente e passa a interferir no sono, no trabalho, nos relacionamentos ou na capacidade de cuidar.

Para a psicóloga, reconhecer o próprio cansaço não é sinal de falha, mas uma forma de cuidado. Em um período marcado pela quebra da rotina e pelo aumento das demandas dentro de casa, admitir limites, pedir ajuda quando possível e buscar apoio profissional diante de sinais persistentes de sofrimento são atitudes que protegem tanto o adulto quanto a criança.

0 comentários

Enviar um comentário