Entre a memória das águas do Pantanal e os corredores de um conjunto habitacional de Campo Grande, duas mulheres se encontram pela palavra. Uma escreve trovas para continuar existindo diante das dores do corpo e das barreiras da cidade. A outra carrega no canto e na poesia a força ancestral do povo Guató. Dessas travessias nasce “A Trovadora e a Poeta”, curta-metragem sul-mato-grossense que terá pré-estreia gratuita na quinta-feira (28), na Casa de Ciência e Cultura da UFMS.
A sessão acontece das 15h às 17h e será seguida de um cine-debate com a participação da atriz e roteirista Gleycielle Nonato Guató, da trovadora e atriz Terezinha Pantaneira, do diretor Marcus Teles, além da Prof. Dra. Rosimeire Aparecida Manoel Seixas, Prof. Dr. Paulo Robson de Souza, sob a mediação de Eduardo Ramirez Meza, coordenador do projeto Compartilhando Saberes entre Gerações.
Misturando ficção e realidade, o filme acompanha o encontro entre Lucila, jovem indígena recém-chegada à capital, e Terezinha, uma senhora cadeirante que transforma as dores da vida em poesia popular. Interpretando versões de si mesmas, as protagonistas constroem uma narrativa marcada pela escuta, pela ancestralidade e pela resistência cotidiana.
“Lucila me atravessa de uma forma muito profunda, porque além de me reconhecer nela, esse também é o nome da minha avó”, afirma Gleycielle Nonato Guató. “Ela representa muitas mulheres indígenas que migram, atravessam preconceitos e deslocamentos, mas seguem criando sonhos sem deixar de carregar sua essência. Interpretá-la foi um reencontro afetivo e ancestral”.
Dirigido e corroteirizado por Marcus Teles, o curta foi construído a partir das vivências reais das protagonistas. “Essas duas mulheres têm muito a dizer, e nós, como sociedade, temos muito a escutar”, destaca o diretor. “A Terezinha aguardou 77 anos para mostrar ao mundo a atriz que existia dentro dela. Já a Gleycielle chega trazendo a força da ancestralidade Guató e uma poesia pantaneira muito própria. No fundo, são duas mulheres vindas das bordas do Pantanal se encontrando na capital. Era impossível que desse encontro não surgisse poesia”.
Aos 77 anos, Terezinha Pantaneira faz sua estreia no cinema. Depois de enfrentar o câncer e as sequelas da Covid-19, que a tornaram cadeirante, encontrou na trova e na arte novos caminhos de existência. “Quando fui convidada, aceitei de pronto visando manifestar uma existência de forma poética, no enfrentamento das dificuldades da vida”, conta. “Conhecer e conviver com Gleycielle me fez encontrar a poesia da existência ancestral, na luta pela sobrevivência dos costumes”, completa.
O filme também conta com uma participação especial do ator Breno Moroni, conhecido por trabalhos em novelas da Globo e no cinema nacional. Esta é a 99ª produção audiovisual da carreira do artista.
Para Gleycielle, a simbologia do rio atravessa toda a narrativa e revela uma dimensão profunda da cultura Guató. “Para o meu povo, o rio não é paisagem. Ele é existência, memória e ensinamento. Somos conhecidos como canoeiros do Pantanal, e nossa relação com as águas é profundamente espiritual. Ver isso representado na tela rompe com visões folclorizadas dos povos indígenas e mostra algo muito verdadeiro: a água como território vivo e ancestral”.
O cine-debate integra as ações do projeto Compartilhando Saberes entre Gerações em conjunto com o projeto MemorIDADE, iniciativas da UFMS voltada à troca de experiências entre diferentes gerações. Para o pesquisador Eduardo Ramirez Meza, a obra propõe reflexões urgentes. “O filme nos pergunta como temos percebido as pessoas idosas, quais obstáculos ainda impedem o envelhecimento com dignidade e quais saberes existem fora dos espaços tradicionalmente acadêmicos. Mais do que respostas prontas, ‘A Trovadora e a Poeta’ nos convida a escutar”.
A atividade é gratuita e possui capacidade para 70 pessoas. A organização recomenda pré-inscrição online, embora a entrada também aconteça por ordem de chegada. Após a pré-estreia, o filme ainda terá sessões na Escola Municipal Isauro Bento Nogueira, no Distrito de Anhanduí, e na Escola Municipal Agrícola Barão do Rio Branco, no Distrito de Rochedinho.
Este projeto conta com recursos da PNAB (Política Nacional Aldir Blanc), do Governo Federal, através do MinC (Ministério da Cultura), executado pela Prefeitura Municipal de Campo Grande, por meio da Fundac (Fundação Municipal de Cultura).
Serviço
Cine-debate – Pré-estreia do curta “A Trovadora e a Poeta”
Data: 28 de maio de 2026 (quinta-feira)
Horário: 15h às 17h
Local: Casa de Ciência e Cultura da UFMS
Entrada gratuita
Certificado de 2h para participantes inscritos com presença registrada
Pré-inscrição pelo link: https://bit.ly/ATrovEaPoeta
0 comentários