Com participação de artistas internacionais, álbum “Shamans in Space” é guiado por rezadores e transforma música em experiência espiritual
Há sons que não cabem apenas nos ouvidos. Há sons que atravessam o corpo, reorganizam o espírito e abrem caminhos entre mundos. Para os povos Guarani e Kaiowá, no Mato Grosso do Sul, o som nunca foi apenas música: é tecnologia ancestral, é reza, é conhecimento vivo. É Mba’ekuaa: um conhecimento vivo, espiritual e prático ao mesmo tempo.
É a partir dessa compreensão que nasce “Shamans in Space”, um projeto que reúne rezadores e rezadoras, guardiões de cantos sagrados do Cone Sul de Mato Grosso do Sul, com artistas da música eletrônica mundial e o rap indígena contemporâneo, em um encontro raro, conduzido não pela lógica da indústria, mas pela escuta, pelo respeito e pela espiritualidade.
O álbum “Shamans in Space” será lançado em vinil neste sábado (18), marcando a chegada de uma obra que atravessa territórios, espiritualidades e linguagens em cerca de 5 mil lojas ao redor do mundo. A partir do dia 1º de maio, o trabalho também estará disponível nas plataformas digitais, ampliando ainda mais o alcance de um projeto que nasce nos cantos sagrados dos povos Guarani e Kaiowá e ecoa para o mundo.
No centro desse processo estão as lideranças espirituais Guarani e Kaiowá, que assumem não apenas a participação, mas a direção do projeto. São eles e elas que definem os limites, orientam os caminhos e preservam a integridade dos cantos: rezas que não podem ser remixadas, nem alteradas, porque carregam em si a força de um conhecimento ancestral que sustenta a vida, a terra e as relações entre diferentes dimensões da existência.
Esse cuidado também atravessa toda a metodologia do projeto, construída ao longo de anos em diálogo com as comunidades. Segundo uma das pesquisadoras e coordenadora do projeto, Fabi Fernandes, o processo rompe com práticas comuns de exploração cultural. “A gente fez questão de que tudo seja construído com os anciãos, etapa por etapa. Eles são os diretores de tudo. Não é só colocar o nome deles como coautores, é garantir que a decisão final seja sempre deles. Isso muda completamente a forma de produzir arte e conhecimento”.
Ao lado dessas vozes, surge o rap indígena de Kelvin Mbaretê, membro fundador do Brô MC’s (primeiro grupo de rap indígena do Brasil) e embaixador do Prêmio Sim à Igualdade Racial – Multishow, que transforma a palavra em flecha, memória e futuro. Para ele, esse encontro não é apenas musical, é espiritual.
“A música deixa de ser só música. Ela vira reza, vira mensagem, vira cura. O rap sempre foi minha arma de luta, mas os cantos sagrados são a voz dos nossos ancestrais. Quando essas duas forças se encontram, tudo muda”.
Vindo de um território marcado por retomadas, violência e resistência, Kelvin leva para o mundo uma luta que antes era silenciada. “Antes, nossa luta era ouvida só aqui. Hoje, com a música, o mundo começa a ouvir. A flecha vira palavra que atravessa fronteiras. É uma forma de mostrar que a gente continua resistindo, mas também criando, vivendo e sonhando”.
Como neto de rezadores, sua criação passa a carregar outra dimensão. “Eu não penso só no beat ou na rima. Eu penso na energia, no que aquela música vai levar pra quem escuta. É como se cada som tivesse um propósito maior”, explica.
Essa dimensão espiritual também atravessa o trabalho do produtor britânico Martin “Youth” Glover, nome fundamental da música contemporânea que atualmente integra a banda de Paul McCartney, com uma trajetória que inclui a produção musical do último álbum do Pink Floyd e colaborações com Guns N’ Roses U2, The Verve, entre outros grandes nomes da música mundial. Ao longo de décadas, Youth vem explorando o som como experiência sensorial e transformadora, mas encontra, neste projeto, um aprofundamento.
“Sempre senti que o som tem um efeito de cura e regeneração. O que me interessa é criar uma espécie de alquimia xamânica entre todos os envolvidos. A música pode nos reconectar com nós mesmos, com a Terra e com o cosmos”, reflete o produtor.
Para Youth, trabalhar com os rezadores Guarani e Kaiowá desloca completamente o processo criativo. “A ideia de transformar o estúdio em um espaço mais próximo de um ritual ou de uma cerimônia, onde tocamos juntos, guiados por essas tradições, é algo profundamente inspirador”, revela.
O projeto também reúne o músico britânico Tymon Dogg, figura cult que integrou produções do The Clash no auge do movimento punk, e cuja trajetória atravessa décadas conectando folk, experimentalismo e performance. Seu violino, historicamente associado à música erudita europeia, aqui ganha novos sentidos ao dialogar com os cantos sagrados, criando uma ponte sensível entre diferentes tradições musicais.
Ao lado de Youth, também participa Matt Black, cofundador da Ninja Tune e um dos pioneiros da cultura do sampling e da música eletrônica contemporânea, ampliando as possibilidades sonoras do projeto sem deslocar seu centro espiritual.
O resultado é um álbum que não busca fusão, mas relação. Um diálogo entre mundos que preserva as diferenças e cria um espaço comum onde o som se torna ponte.
Essa relação também se expressa nas diferentes camadas do próprio álbum. Parte das faixas nasce do encontro entre a música eletrônica contemporânea e cantos tradicionais autorizados para experimentação, como os guahú e guaxiré — cantos ligados à alegria, à celebração e à conexão com os espíritos da mata e dos animais.
Ao mesmo tempo, as rezas sagradas, em sua forma pura, foram preservadas sem qualquer interferência. Esses cantos, considerados mais sensíveis dentro da cosmologia Guarani e Kaiowá, aparecem como uma experiência complementar ao álbum. No encarte do vinil, um QR Code direciona o público para um registro especial com cerca de 15 minutos dessas rezas, mantendo sua integridade e função espiritual.
Assim, “Shamans in Space” se constrói entre duas dimensões: de um lado, a experimentação sonora e o diálogo com a música eletrônica; de outro, a preservação dos cantos sagrados em sua forma original, reafirmando o respeito aos limites e protocolos definidos pelos próprios rezadores.
Esse processo de construção também é destacado por Fabi, que acompanhou de perto a criação do projeto. Para ela, o encontro entre mundos tão distintos exigiu mais do que técnica: exigiu escuta.
“Foi um grande desafio construir essa ponte, justamente por serem mundos muito distintos. Mas quando a gente se permite sentir e trocar na diferença, a gente percebe o quanto também somos iguais. Mesmo sem compartilhar a mesma língua, o som virou uma linguagem comum. Foi ali que o diálogo aconteceu”.
A partir da vivência em território, Fabi destaca que o projeto desloca a ideia de música como entretenimento para um outro campo de compreensão. “A gente aprendeu que o som vai muito além de algo para ouvir ou se entreter. O som é uma ferramenta de conexão entre mundos. Uma forma de manter esse equilíbrio entre o mundo espiritual e o mundo em que a gente vive”.
Lançado em vinil, “Shamans in Space” ganha corpo como objeto e experiência sensorial, chegando em lojas de todo o mundo. Mais do que um produto, o disco se afirma como um gesto político e espiritual: todos os royalties serão destinados aos rezadores e rezadoras Guarani e Kaiowá, fortalecendo a continuidade, a preservação e a transmissão dos cantos sagrados em seus territórios.
Ao cantar em guarani, Kelvin reforça que a língua também é território. “A nossa língua é o nosso DNA. Mesmo quem não entende as palavras sente a energia. Ela vira ponte entre culturas. E mostra que a nossa língua pode viajar o mundo sem perder a raiz”, pontua.
Entre beats e maracás, sintetizadores e takuapus, o álbum constrói uma travessia. Cada faixa carrega uma cosmologia, um tempo próprio, uma relação com o invisível. Não se trata apenas de escutar, mas de sentir, de atravessar, de se deixar afetar. “Eu quero que, quando alguém ouvir esse álbum, sinta algo no coração. Porque isso é mais do que música. É a nossa história, nossa espiritualidade, nossa resistência viva”.
“Shamans in Space” é fruto do projeto internacional de pesquisa Sounding Futures, desenvolvido em parceria entre o UCL Multimedia Anthropology Lab (UCL MAL) sediado na University College London, o Instituto para o Desenvolvimento da Arte e da Cultura (IDAC) e a Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS), reunindo arte, ciência e saberes ancestrais em um mesmo território de criação.
A gravadora Liquid Sound Design, responsável pela produção do álbum, é um selo independente sediado no Reino Unido, reconhecido por sua atuação na cena global de música eletrônica psicodélica. Com um catálogo que transita entre o psytrance, ambient e downtempo electronica, o selo se destaca por impulsionar artistas que expandem os limites da experiência sonora, com lançamentos que circulam em festivais internacionais e comunidades dedicadas à escuta, conectando públicos ao redor do mundo.
O projeto ainda envolve Martin “Youth” Glover (produtor musical e artista), Matt Black (produtor, artista audiovisual e cofundador da Ninja Tune), Tymon Dogg (músico, violinista e performer com trajetória ligada ao universo do The Clash), Kelvin Mbaretê (rapper indígena e integrante do Brô MC’s), as lideranças espirituais Guarani e Kaiowá Nhandesy Roseli, Nhandesy Fausta e Nhanderu Tadeu (rezadoras e rezador responsáveis pela direção espiritual e curadoria dos cantos), além da coordenação de Raffaella Fryer-Moreira, Fabi Fernandes e o DJ indígena Scott Hill, entre outros artistas e pesquisadores envolvidos no desenvolvimento da obra.
Para a pesquisadora Raffaella Fryer-Moreira, que coordena o projeto, o álbum também propõe uma mudança profunda na forma de produzir conhecimento. “Esse trabalho nasce de uma investigação sobre como fazer pesquisa de outras formas, mais abertas, colaborativas e acessíveis. Ao trazer o som como ferramenta central, o projeto questiona a divisão entre arte e ciência e mostra que a música também pode ser uma forma de conhecimento”.
A partir do conceito de Mba’ekuaa, Raffaella destaca que cada cultura carrega suas próprias tecnologias. “Quando os anciãos dizem ‘esse é o nosso Mba’ekuaa’, eles estão falando de um saber fazer, de uma tecnologia própria. Assim como usamos câmeras e microfones, eles utilizam o som, a reza. São formas diferentes de produzir conhecimento e de se relacionar com o mundo”.
Em um tempo marcado por rupturas, distâncias e desconexões, o álbum propõe outra escuta: aquela que não separa arte e vida, som e espírito, passado e futuro. Uma escuta que lembra que há conhecimentos que não estão nos livros, mas no canto — e que, quando compartilhados com respeito, podem redesenhar o mundo.
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