O último orelhão em funcionamento de Campo Grande está localizado a cerca de 40 quilômetros do centro da cidade, no distrito de Rochedinho. Escondido na entrada do povoado, o telefone público segue ativo e preserva uma história de mais de três décadas, em meio ao processo de extinção desses aparelhos no Brasil.
Segundo a Agência Nacional de Telecomunicações, Mato Grosso do Sul possui atualmente 107 orelhões instalados, mas apenas 58 ainda estão em funcionamento. A partir de janeiro de 2026, começa a retirada em massa dos aparelhos desativados em todo o país. Os poucos orelhões ativos devem ser mantidos apenas em locais sem cobertura de telefonia móvel, e somente até 2028.
Em Rochedinho, o aparelho passou por adaptações ao longo do tempo. Mantido dentro da estrutura clássica, hoje conta com um telefone semelhante aos modelos residenciais. Não é mais necessário o uso de ficha ou cartão, e as ligações locais e nacionais realizadas diretamente no aparelho são gratuitas.
A data exata da instalação do orelhão no distrito é desconhecida, mas sua localização é considerada estratégica, em frente a uma Unidade de Saúde da Família e aos Correios, logo na entrada da comunidade.
A história do telefone público se confunde com a trajetória de Maria das Dores de Lima, funcionária dos Correios há mais de 30 anos e conhecida pelos moradores como a guardiã do orelhão. No passado, era ela quem organizava as filas, anotava horários, duração das ligações e controlava as cobranças, que posteriormente eram repassadas aos moradores.
Maria também era responsável por anotar e entregar recados deixados por pessoas que ligavam procurando moradores do distrito, muitos deles residentes em fazendas e sem acesso frequente à vila. Em uma comunidade com pouco mais de mil habitantes, ela garantia que nenhuma mensagem deixava de chegar ao destino.
Com a popularização dos telefones celulares, o orelhão quase não é mais utilizado. Ainda assim, permanece como símbolo de uma época em que o aparelho era essencial para a comunicação da comunidade.
Criado em 1971 pela arquiteta sino-brasileira Chu Ming Silveira, o orelhão se tornou um ícone do design urbano brasileiro. Além da estética marcante, o formato foi desenvolvido para melhorar a acústica das ligações e reduzir o ruído externo, sendo reproduzido em países como Peru, Angola, Moçambique e China. Em Rochedinho, o aparelho segue de pé, guardando memórias e resistindo ao tempo.
Foto: Marcus Vinnícius/TV Morena






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