Foto: Arte/Metrópoles
A possibilidade de fragmentação da direita brasileira nas eleições presidenciais de 2026 levanta dúvidas sobre seus efeitos na tentativa de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A análise é do cientista político Leonardo Barreto, que aponta que o campo não lulista pode se dividir em ao menos duas candidaturas competitivas, como Flávio Bolsonaro e algum governador ligado ao PSD, o que pode beneficiar o atual presidente dependendo da forma como a disputa se desenrolar.
Entre analistas políticos, o debate central é se o fracionamento da direita enfraquece ou fortalece Lula. A resposta, segundo Barreto, está menos no número de candidaturas e mais na dinâmica da campanha e no nível de confronto entre os postulantes do mesmo campo ideológico.
Como referência, o analista cita a eleição presidencial do Chile, realizada em dezembro de 2025. Na ocasião, José Antonio Kast, do Partido Republicano, venceu a candidata governista Jeannette Jara com 58% dos votos. O resultado ocorreu mesmo com a oposição dividida em quatro candidaturas no primeiro turno.
Além de Kast, disputaram a eleição Franco Parisi, do Partido Popular, que ficou em terceiro lugar com 19,7% dos votos após uma campanha quase totalmente digital voltada ao eleitorado “nem-nem”, Johannes Kaiser, da direita libertária, que obteve 13,9% dos votos ao adotar um discurso mais radical, e Evelyn Matthei, da direita tradicional, que somou 12,5% e era vista como a preferida do setor econômico chileno.
Apesar da fragmentação inicial, a oposição chilena conseguiu se unificar programaticamente no segundo turno, o que facilitou a vitória de Kast. A rejeição ao então presidente Gabriel Boric acabou sendo transferida à candidata governista, contribuindo para o desfecho do pleito.
No Brasil, o cenário desenhado até o momento indica uma direita ainda mais pulverizada. Além de Flávio Bolsonaro, que representaria o movimento político liderado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, há nomes como Ratinho Júnior, Ronaldo Caiado e Eduardo Leite, associados a uma direita mais tradicional e tecnocrática. Soma-se a isso a possível candidatura de Renan Santos, ligado ao MBL, que busca capitalizar a rejeição aos políticos tradicionais.
Ao concentrar a análise em Flávio Bolsonaro e Ratinho Júnior, Barreto identifica um clássico dilema de ação coletiva. Embora a cooperação entre eles aumentasse as chances de vitória contra Lula, interesses individuais podem levar ambos a estratégias que resultem no pior cenário coletivo, ou seja, a derrota no segundo turno.
Esse risco se intensifica se a disputa interna ganhar tons mais agressivos. Caso Ratinho Júnior perceba chances reais de avançar ao segundo turno, pode se sentir pressionado a atacar Flávio Bolsonaro, o que provocaria reações e aprofundaria divisões. O efeito colateral seria a dificuldade de transferir votos entre os dois grupos no eventual segundo turno.
Eleitores de Ratinho Júnior, que tendem a rejeitar tanto Lula quanto Bolsonaro, podem se recusar a apoiar Flávio Bolsonaro. Da mesma forma, apoiadores do filho do ex-presidente podem optar pela abstenção diante de uma candidatura vista como tradicional ou ligada ao sistema político.
Segundo a literatura política, dilemas desse tipo podem ser superados com acordos prévios, regras claras de convivência e confiança entre os atores. Isso envolveria a construção de um pacto entre Flávio Bolsonaro e eventuais candidatos do PSD, com limites bem definidos para ataques, discurso unificado contra o governo Lula e disciplina estratégica ao longo da campanha.
O objetivo, destaca o analista, não é eliminar rivalidades pessoais, algo que pode ser resolvido após a eleição, mas evitar que conflitos internos cheguem ao eleitorado e criem barreiras para a transferência de votos no segundo turno.
Por fim, Barreto avalia que a presença de mais candidaturas pode atender a uma demanda real do eleitorado. Estima-se que ao menos 30% dos eleitores desejam alternativas ao embate direto entre Lula e Bolsonaro. Nesse sentido, a multiplicidade de nomes, se bem administrada, pode aproximar a oferta partidária das expectativas dos eleitores, como ocorreu no caso chileno.










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