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Abgail, Orelha e Baleia: três vira-latas que nos lembram da humanidade

por | fev 4, 2026 | Últimas notícias

Por Conceição Freitas

Depois de um forte temporal no fim do ano passado, uma cadela apareceu e se acomodou discretamente em uma calçada de bairro. Alguns moradores dizem que o antigo tutor morreu e que ela passou a vagar sozinha em busca de abrigo. Recebeu o nome de Abgail, embora também seja chamada de Princesa por quem convive com ela diariamente.

Vira-lata de pelagem em tons de cinza e caramelo, Abgail tem porte robusto e aparência de quem não passa fome há tempos. O rabo curto mal se movimenta, o olhar é baixo e triste, como se pedisse atenção. Anda devagar, demonstrando sinais da idade. Em pouco tempo, tornou-se a cadela comunitária da região, conhecida por todos os comerciantes e frequentadores da área.

Abgail percorre diariamente as calçadas irregulares de Brasília, passando pela loja de material de construção, mercadinho, padaria, papelaria, loja de bolos e barbearia. Logo cedo, se posiciona na porta da padaria, embora não goste de pão. Quando o calor aperta, entra na loja de material de construção maior e dorme perto das latas de tinta. Não lhe falta comida: recebe ração todos os dias, já foi levada ao veterinário e passou por banho e tosa.

A história de Abgail contrasta com a do Orelha, outro cão comunitário que ganhou repercussão nacional após ser brutalmente espancado, despertando indignação em todo o país. Abgail teve mais sorte. Mais até do que Baleia, a cadela mais emblemática da literatura brasileira, personagem do romance Vidas Secas, de Graciliano Ramos.

Baleia vivia em condições extremas, com costelas aparentes e fome constante, assim como a família de retirantes formada por Fabiano, sinhá Vitória e os dois filhos. Em um cenário de miséria absoluta, Baleia se destaca como a personagem que mais expressa afeto e sensibilidade, funcionando como elo emocional entre os membros da família e como elemento que preserva a humanidade dos personagens.

No romance, os filhos sequer têm nomes, são chamados de Filho Mais Novo e Filho Mais Velho. Baleia é a única personagem pequena nomeada. É ela quem consola, protege, observa e reage aos acontecimentos, muitas vezes mais sensível do que os próprios humanos. Em cenas marcantes, a cadela demonstra empatia, brinca para aliviar o sofrimento das crianças e responde aos gestos e palavras limitadas dos meninos com movimentos compreensíveis.

Em meio à vida dura e quase sem diálogo, Baleia devolve a linguagem e o afeto àquela família à beira da desumanização. Age como sentinela, narradora silenciosa e símbolo de resistência emocional, expressando alegria, medo e carinho mesmo nas piores circunstâncias.

Abgail, Orelha e Baleia, cada um a seu modo, representam mais do que cães sem raça definida. São símbolos profundamente brasileiros que, vivos, mortos ou eternizados na literatura, ajudam a lembrar que a empatia e o cuidado com o outro são fundamentais. Em tempos de brutalidade e indiferença, esses vira-latas seguem tentando nos salvar de nossa própria desumanidade.

Foto:Conceição Freitas/Metrópoles

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