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Do “Farmar Aura” ao Brainrot: Especialistas do Humap-UFMS/HU Brasil explicam o Impacto da Linguagem Digital na Mente Jovem 

por | jul 28, 2026 | Últimas notícias | 0 Comentários

Neurologista e Psicólogo do hospital universitário analisam a neurobiologia das gírias virtuais, a física da atenção nos algoritmos e os impactos comportamentais no cotidiano da juventude

Se você ouviu um adolescente dizer que “perdeu aura”, comentou o enigmático “six seven” ou reclamou de estar experimentando um verdadeiro “brainrot”, calma: você não está presenciando apenas uma modinha sem sentido. Por trás do vocabulário que domina as redes sociais e o cotidiano da nova geração existe uma complexa engrenagem onde a cultura digital reflete diretamente o funcionamento do cérebro e as dinâmicas de pertencimento social.
 

Para decifrar o que acontece na mente e no comportamento de quem consome e repete esses códigos virtuais, o Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian (Humap-UFMS/HU Brasil) reuniu a visão de dois de seus especialistas: o Dr. Pedro Levi, neurologista especializado em cognição e comportamento com foco em atendimento humanizado e qualidade de vida, e o psicólogo Thiago Ayala, especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental e Psicologia da Saúde, que acumula ampla trajetória em hospitais, serviços públicos e residência multiprofissional e atendimento clínico.
 

Juntos, os profissionais mostram que o fenômeno vai muito além de meras gírias infantis ou juvenis, servindo como uma poderosa lente para entender como as tecnologias modernas disputam a atenção humana.

A biologia do pertencimento e a busca por recompensa

Afinal, por que expressões aparentemente estranhas — como o “six seven”, famosa por sua ambiguidade e falta de significado único — viralizam com tanta rapidez? Segundo o neurologista Pedro Levi, a explicação começa na própria evolução biológica da nossa espécie.
 

“Do ponto de vista neurológico, o cérebro humano é uma máquina social. Somos projetados biologicamente para buscar conexão e pertencimento”, explica o médico. “Quando uma nova gíria ou meme como ‘farmar aura’ surge, usá-la funciona como um ‘crachá’ de pertencimento a um grupo.”
 

Além do fator social, o médico ressalta o papel do sistema de recompensa cerebral na viralização desses termos. Neologismos, expressões curtas, inusitadas e trazidas do universo dos jogos ou de outros idiomas geram descargas rápidas de dopamina — o neurotransmissor associado ao prazer e à motivação. Como o cérebro possui um viés de novidade inerente, ele abraça esses atalhos mentais, que criam uma identidade coletiva de forma instantânea.
 

O psicólogo Thiago Ayala complementa que essas expressões funcionam quase como senhas sociais, onde a referência e o momento do uso importam mais do que o sentido literal da palavra. Na adolescência, fase em que a aproximação com os pares e a construção da identidade são cruciais, dominar esses códigos traz validação.
 

“Compartilhar uma linguagem, rir das mesmas referências e compreender uma brincadeira que outras pessoas não entendem produz reconhecimento e pertencimento. É como dizer: ‘Eu faço parte desse grupo e entendo os seus códigos'”, detalha Thiago.

‘Brainrot’: Metáfora cultural ou fadiga mental?

Outro termo que ganhou força nas telas foi o “brainrot” (literalmente, “apodrecimento do cérebro”), usado de forma irônica por internautas para descrever a sensação de torpor após horas consumindo vídeos fúteis. Mas haveria algum fundo de verdade médica por trás da brincadeira?
 

Sob a ótica da Psicologia, Thiago Ayala esclarece que o termo deve ser entendido como uma metáfora cultural, e não como um diagnóstico ou uma deterioração física real. “O termo expressa a sensação de estar mentalmente saturado depois de consumir, durante muito tempo, conteúdos rápidos, repetitivos e pouco aprofundados. O interessante é que os próprios jovens utilizam a expressão de maneira crítica e bem-humorada, reconhecendo o excesso.”
 

No entanto, o neurologista Pedro Levi adverte que, embora o cérebro não apodreça de fato, a expressão descreve com precisão uma condição neurofisiológica bem real: a fadiga mental.

O consumo desenfreado de conteúdos fragmentados sobrecarrega a memória de trabalho e desregula os receptores de dopamina. O cérebro entra em exaustão por processar um volume massivo de informações inúteis em curto tempo, desencadeando a chamada Brain Fog — uma espécie de “névoa mental” ou letargia que afeta quem passa longas horas diante das telas.

Sinais de alerta e a busca pelo equilíbrio digital

Diante desse panorama, em que momento o uso do celular deixa de ser entretenimento e passa a prejudicar a saúde mental? Para Thiago Ayala, não existe um número exato de minutos que determine o limite entre o saudável e o patológico; o verdadeiro termômetro é o impacto funcional na rotina do indivíduo.
 

Os profissionais do Humap-UFMS/HU Brasil apontam diversos sinais de alerta comportamentais e neurológicos que exigem atenção dos próprios usuários e de suas famílias:
 

Irritabilidade e ansiedade intensas quando o celular não está acessível (efeito da abstinência dopaminérgica);

Dificuldade para ler textos longos sem o impulso de checar o telefone a cada poucos minutos;

Distúrbios do sono, como insônia e cansaço ao acordar, causados pela luz azul que inibe a produção natural de melatonina;

Esquecimentos frequentes de curto prazo e falhas de retenção;

Apatia e perda de interesse por esportes ou encontros presenciais, que não entregam dopamina na velocidade do ambiente virtual;

O uso das redes como única estratégia para anestesiar tristeza, solidão ou frustração.

Reassumindo o controle: orientações para jovens e famílias

Apesar dos riscos, os especialistas enfatizam que a solução não passa pelo banimento cego da tecnologia, mas sim pelo desenvolvimento da autonomia e do senso crítico.

O neurologista Pedro Levi orienta a adoção de uma “higiene do sono inegociável”, desligando telas de uma a duas horas antes de deitar para garantir o sono profundo e a consequente limpeza de toxinas cerebrais. Ele também recomenda o treinamento diário da atenção sustentada por meio de leituras impressas, instrumentos musicais ou exercícios meditativos, além de ajustar o ambiente digital — desativando notificações dispensáveis e utilizando as redes de forma ativa (com um propósito claro) em vez de passiva (para combater o tédio).

No âmbito familiar, o psicólogo Thiago Ayala reforça que o diálogo deve se sobrepor à punição. Demonstrar curiosidade sobre o que o jovem assiste, em vez de ridicularizar os memes, abre portas para construir um pensamento crítico.
 

“A família pode combinar momentos sem celular, principalmente durante as refeições, nos estudos e antes de dormir”, sugere Thiago. “Os adultos também precisam observar o próprio comportamento, pois torna-se contraditório exigir que o adolescente deixe o celular enquanto os responsáveis permanecem constantemente conectados.”


Sobre a HU Brasil

O Humap-UFMS integra a HU Brasil desde dezembro de 2013. Criada por meio da Lei nº 12.550/2011 e vinculada ao Ministério da Educação (MEC), a estatal nasceu tendo como nome oficial Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh). É responsável pela administração de 47 hospitais universitários federais em 25 unidades da federação.

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