Autor de “Sismógrafo” dividiu com o público os processos de criação que atravessam prosa, poesia e experiência pessoal
O escritor Leonardo Piana conversou com o público da 10ª Feira Literária de Bonito (FLIB) na noite de quinta-feira (9). A conversa, mediada por Marcelle Saboia, mediadora de grupos de leitura, percorreu temas como formação leitora, memória, desejo e a presença das vivências LGBTQIA+ em sua literatura.
No Palco Literário, Piana contou que sua relação com a escrita começou na infância, influenciada pelas músicas caipiras que ouvia ao lado do pai. “Aquilo me comovia e mexia com alguma coisa dentro de mim. Eu sentia uma vontade muito grande de reproduzir, de alguma forma, o que aquelas músicas provocavam”, recordou. Os primeiros textos eram poemas dedicados aos pais e avós, escritos antes mesmo de o autor compreender que aquilo poderia ser chamado de poesia.
Na escola, um encontro decisivo aconteceu por meio do livro “O que os olhos não veem”, de Ruth Rocha, narrativa escrita em versos que o autor guarda até hoje. Piana afirmou que a obra ajudou a apontar um caminho de aproximação entre prosa e poesia que retomaria anos depois em sua própria produção. Hoje, disse buscar diálogo com escritores contemporâneos brasileiros, tanto na leitura quanto na escrita.
O autor também falou sobre “Escalar cansa”, livro de poemas vencedor do Prêmio Sesc de Literatura. Os textos foram escritos ao longo de anos e praticamente não haviam sido mostrados a outras pessoas até a inscrição no prêmio. Ao reunir o material, Piana percebeu que os poemas formavam um conjunto com lógica narrativa própria.
Além da publicação, a premiação garantiu uma programação de encontros, clubes de leitura e debates em diferentes estados do país. “Para mim, isso é uma iniciativa real de democratização da literatura, ainda mais em um país tão desigual e que precisa formar leitores”, destacou o autor, que lembrou que os eventos são gratuitos e que, em muitos deles, os livros são distribuídos ao público presente.
Lembranças como matéria maleável
A conversa chegou também a “Sismógrafo”, romance de estreia do autor, vencedor do Prêmio Cidade de Belo Horizonte e finalista de premiações como o Jabuti e o Prêmio São Paulo de Literatura. A obra acompanha Eduardo, que revisita as lembranças de um relacionamento vivido na juventude a partir de fotografias e de um segredo exposto ainda na adolescência.
Parte do livro foi escrita em Andradas, cidade natal do autor, durante um período de pesquisa viabilizado por bolsa do Itaú Cultural. Piana contou que o retorno ao município o ajudou a perceber que a narrativa não tratava apenas de sua própria experiência, mas também das memórias de amigos e amigas que cresceram com ele no mesmo território. “Foi uma tentativa de encontrar um denominador comum entre a minha memória e a memória dessas pessoas, para que o livro não fosse só sobre mim, mas também falasse sobre elas e junto com elas”, explicou.
Para o autor, a literatura permite tratar a memória como algo instável, que pode ser reorganizado ou colocado em dúvida. Essa característica aparece no modo como Eduardo questiona se os acontecimentos foram vividos exatamente como permaneceram em sua lembrança.
A fotografia teve papel semelhante no processo de escrita. Piana relatou que passou a fotografar Andradas com uma câmera analógica durante a produção do livro, tentando compreender como o personagem, também fotógrafo, observaria a cidade. As imagens chegaram a compor uma primeira versão do romance, mas foram retiradas depois da leitura de amigos. “Percebi que o livro já era muito imagético por si só e que, sem as fotografias, ele começou a respirar melhor. Uma das primeiras resenhas o definiu como um livro fotográfico sem imagens”, contou.
Adaptação para o cinema
Os direitos de “Sismógrafo” foram vendidos para uma produtora mineira, e o projeto de adaptação cinematográfica está em fase inicial de desenvolvimento de roteiro. Piana disse acompanhar de perto o trabalho do diretor e roteirista responsável pela transposição da história para o audiovisual, mas afirmou preferir que a equipe tenha liberdade total para encontrar uma linguagem própria do cinema.
Ao final do encontro, leitores que já haviam discutido os livros de Piana em clubes de leitura compartilharam impressões e agradecimentos, reforçando o clima de proximidade que marcou a conversa e a relação que o autor mantém com o público que acompanha sua obra.
Evento oficial
A FLIB, em 2026, presta homenagem à escritora Lygia Fagundes Telles e ao escritor e editor douradense Luciano Serafim, que faleceu em 2025 e teve participação marcante na história da feira.
A edição conta com apoio de instituições públicas e privadas, incluindo recursos viabilizados por emendas parlamentares, além da participação da Caixa, Sesc MS, Sebrae, Sanesul, Prefeitura Municipal de Bonito, Câmara Municipal de Bonito, Ministério da Cultura e do Estado de Mato Grosso do Sul.
A FLIB integra o Calendário Municipal de Eventos de Bonito e, desde a publicação do decreto estadual nº 6.457, de 11 de agosto de 2025, também faz parte do Calendário Oficial de Eventos de Mato Grosso do Sul, reforçando sua relevância no cenário cultural e educacional do estado.
Serviço:
10ª Feira Literária de Bonito (FLIB)
Data: 7 a 12 de julho de 2026
Local: Praça da Liberdade, Bonito/MS
Programação disponível em https://flibonito.com—
Evelise Couto
Assessoria de Imprensa









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