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Dor de cabeça frequente pode indicar doença incapacitante, alerta neurologista do HDT-UFNT

por | maio 18, 2026 | Últimas notícias | 0 Comentários

Fonte: Freepik

Especialista do hospital universitário reforça importância do diagnóstico correto e do acompanhamento médico para prevenir a cronificação da cefaleia

Celebrado em 19 de maio, o Dia Nacional de Combate à Cefaleia tem como objetivo alertar a população sobre a dor de cabeça, orientar a respeito dos riscos e das formas de prevenção da doença, além de conscientizar sobre os perigos da automedicação. A Classificação Internacional das Cefaleias (ICHD-3) reconhece mais de 300 tipos diferentes da condição, divididos em cefaleias primárias, nas quais a dor é a própria doença, e secundárias, em que a dor representa sintoma de outra condição decorrente de causas diversas, como vasculares, infecciosas, tumorais, traumáticas e metabólicas, entre outras.

De acordo com o médico neurologista e especialista em dor Felipe Dias, que atua no Hospital de Doenças Tropicais da Universidade Federal do Norte do Tocantins (HDT-UFNT/HU Brasil), a cefaleia, popularmente conhecida como dor de cabeça, corresponde a qualquer sensação dolorosa localizada na região cefálica. Segundo ele, a avaliação médica é fundamental diante de sinais de alerta, assim como em quadros que provoquem limitação funcional ou sofrimento.

“Como a cefaleia é uma das principais causas de incapacidade na faixa etária produtiva, ou seja, de absenteísmo ocupacional, o acompanhamento especializado torna-se indispensável. Uma forma mais objetiva de reconhecer a gravidade dessa condição, muitas vezes subvalorizada, é a necessidade de uso de analgésicos em frequência superior a dois dias por semana. Esse padrão indica descompensação clínica, eleva o risco de cronificação da dor e compromete substancialmente o prognóstico e o manejo terapêutico posterior”, explica Felipe.

Para o especialista, três pontos merecem destaque no debate sobre a cefaleia. O primeiro é que a cefaleia “não é frescura”. A migrânea, popularmente conhecida como enxaqueca, é a segunda maior causa mundial de anos vividos com incapacidade e afasta do trabalho a população economicamente ativa, especialmente entre 25 e 55 anos, por mais dias do que muitas doenças crônicas, configurando-se como um problema de saúde pública.

O segundo ponto é a automedicação, que, quando se torna frequente, representa a principal causa reversível de cefaleia crônica diária. Pacientes que utilizam analgésicos de qualquer tipo entre 10 e 15 dias por mês podem evoluir para cefaleia por uso excessivo de medicação, e o quadro costuma melhorar apenas com a redução gradual do medicamento.

Por fim, Felipe destaca os avanços terapêuticos disponíveis atualmente. “Anteriormente, utilizávamos medicamentos de outras áreas para tratar enxaqueca, como antidepressivos, anticonvulsivantes e anti-hipertensivos. Hoje, dispomos de medicamentos desenvolvidos especificamente para bloquear essas vias. Isso permite oferecer tratamentos muito mais eficazes, direcionados à fisiopatologia da enxaqueca e com menos efeitos colaterais”, ressalta.

O médico descreve os principais fatores desencadeantes das cefaleias primárias tensionais, entre eles sedentarismo, estresse e erros posturais, fatores também comuns na enxaqueca. Já na migrânea, podem ser observados gatilhos como estresse, privação ou excesso de sono, jejum prolongado, desidratação, oscilações hormonais no período menstrual, além de alimentos como vinho, queijos, melancia e embutidos em pacientes suscetíveis. Estímulos sensoriais intensos, como luzes fortes e odores, além de mudanças climáticas, também podem desencadear crises.

“Pacientes com cefaleia em salvas, condição neurológica rara e extremamente dolorosa, apresentam desencadeantes específicos durante o período ativo da doença, sendo a ingestão de álcool, histamina e compostos com nitroglicerina os gatilhos mais clássicos de uma crise severa”, acrescenta.

Medidas preventivas

Quando a frequência das dores é elevada ou a incapacidade provocada pelas crises compromete a qualidade de vida do paciente, a recomendação é realizar tratamento profilático (preventivo). “A prevenção deve sempre envolver medidas não farmacológicas, mas, em muitos casos, o tratamento medicamentoso também se faz necessário. As medidas não farmacológicas variam conforme o tipo de cefaleia e o estilo de vida de cada paciente. Destaco técnicas de relaxamento, biofeedback, acupuntura, fisioterapia e terapia cognitivo-comportamental, além da prática regular de atividade física, qualidade do sono, hidratação adequada, alimentação saudável e correção de hábitos posturais inadequados”, detalha o neurologista.

Felipe afirma ainda que a profilaxia farmacológica é indicada quando há pelo menos três a quatro dias de cefaleia intensa por mês, dois dias incapacitantes ou crises refratárias ao tratamento abortivo, ou seja, quando a medicação inicial falha em interromper uma crise grave. “A escolha da medicação é guiada pelo tipo de cefaleia e pelas características individuais do paciente. No caso da enxaqueca, entre as diversas opções terapêuticas, podemos citar betabloqueadores, antidepressivos, anticonvulsivantes e terapias modernas, como toxina botulínica e anticorpos monoclonais”, aponta.

O neurologista observa que a cefaleia é a queixa neurológica mais prevalente, mas também uma das condições mais subdiagnosticadas. “Os erros mais comuns no manejo não especializado envolvem rotular como ‘enxaqueca’ qualquer dor de cabeça. O acompanhamento médico é fundamental para diferenciar os principais tipos de cefaleias primárias e, principalmente, as secundárias, que podem indicar doenças potencialmente graves. Falhar no reconhecimento dessas condições, como hemorragia subaracnóidea ou meningite, pode ter consequências fatais”, alerta.

Importância do diagnóstico correto

Por isso, o diagnóstico correto é essencial para definir o alvo terapêutico adequado e evitar um problema frequente na prática clínica: a cefaleia por uso excessivo de medicamentos. O uso crônico e indiscriminado de analgésicos e anti-inflamatórios, comum entre pessoas que se automedicam, pode provocar efeito contrário ao esperado, tornando a dor crônica, agravando os sintomas e dificultando o controle da doença.

A distribuição etária e por gênero varia conforme o tipo de cefaleia. A enxaqueca apresenta alta prevalência, acometendo cerca de 15% da população mundial, com maior incidência na faixa etária produtiva, especialmente entre 25 e 50 anos. Além disso, é considerada a segunda principal causa global de incapacidade e predomina no sexo feminino, fortemente influenciada pelas oscilações hormonais.

Já a cefaleia tensional, o tipo mais frequente, costuma iniciar por volta dos 30 anos e acomete ligeiramente mais mulheres. Em contrapartida, a cefaleia em salvas, além de mais rara, apresenta predominância no sexo masculino e pico de início entre os 20 e 40 anos. “Vale destacar que a presença de bruxismo, comorbidades psiquiátricas, como ansiedade e depressão, transtornos do sono e sedentarismo, além de hábitos de vida inadequados, atuam diretamente na incidência, frequência e intensidade das cefaleias primárias”, pontua Felipe.

O médico reforça que a abordagem não farmacológica jamais deve ser negligenciada. “É fundamental manter hábitos de vida saudáveis, como alimentação balanceada sem longos períodos de jejum, prática regular de exercícios físicos e cuidados com a higiene do sono. Em muitos casos, também é importante adotar um diário de cefaleia, seja em papel ou por aplicativos. Registrar as datas das crises, fatores desencadeantes, tipo de dor e medicamentos utilizados ajuda a aumentar a precisão diagnóstica, permite ao paciente reconhecer e evitar os próprios gatilhos e auxilia o médico na avaliação individualizada da eficácia do tratamento”, conclui.

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