Um dos filmes mais enigmáticos da história do cinema regional brasileiro acaba de ser reposicionado no tempo — não como obra perdida, mas como presença contínua. O jornalista e escritor Rodrigo Teixeira lançou na manhã do dia 28 de abril, no auditório Arq. Jurandir Nogueira, no campus da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), em Campo Grande, o catálogo Em Busca do Lendário Paralelos Trágicos, resultado de uma investigação que recompõe a trajetória do longa-metragem dos irmãos Bernardo Elias Lahdo e Abboud Lahdo e desmonta, com base documental, a narrativa de desaparecimento que o cercou nas últimas décadas. Em 29 de abril, às 19h, o jornalista irá lançar o catálogo no auditório do Museu da Imagem e do Som (MIS-MS).
Em Busca do Lendário Paralelos Trágicos reúne 215 matérias jornalísticas publicadas entre 1964 e 2024, em 54 veículos de imprensa de cinco Estados brasileiros e do Distrito Federal, e traz um dado decisivo: a confirmação de que materiais em 35 mm do filme Paralelos Trágicos estão preservados na Cinemateca Brasileira e existe a possibilidade de restauração. Paralelamente, a pesquisa comprova que Bernardo Lahdo mantém em seu acervo pessoal uma cópia do longa em 16mm. O catálogo está disponível gratuitamente no blog Matula Cultural e integra ações de acessibilidade, com um vídeo produzido pela tradutora Alessandra Souza em Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS) disponível no canal do projeto no YouTube.
O catálogo Em Busca do Lendário Paralelos Trágicos é um projeto realizado com recursos da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), do Governo Federal, através do Ministério da Cultura (Minc), operacionalizado pelo Governo de Mato Grosso do Sul, por meio da Fundação de Cultura de MS.
O levantamento demonstra que Paralelos Trágicos jamais saiu completamente do espaço público — ao contrário, permaneceu sendo citado, debatido e lembrado ao longo de seis décadas. O catálogo reúne dois textos que contextualizam a produção dos irmãos Lahdo no cenário do cinema nacional e na construção do audiovisual fora do eixo Rio–São Paulo. O primeiro, assinado por Rodrigo Teixeira, aprofunda os dados e interpretações da pesquisa. O segundo, de Gabriela Pingarilho, propõe uma reflexão sobre a memória audiovisual no Brasil a partir da trajetória do filme.
Realizado entre 1965 e 1966 e lançado em 13 de janeiro de 1967, no Cine Alhambra, em Campo Grande, Paralelos Trágicos é considerado o primeiro longa-metragem de ficção produzido no Mato Grosso uno. Dirigido por Abboud Lahdo e produzido por Bernardo, o filme nasce da adaptação do romance homônimo publicado por Bernardo em 1965, obra que rapidamente ganhou repercussão na imprensa regional e nacional. A trajetória do filme nas salas de cinema também chama atenção.
A pesquisa documenta exibições de Paralelos Trágicos entre 1967 e 1971 em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Campo Grande, Cuiabá, Santos, Campinas e Brasília — um tempo de circulação incomum para uma produção independente realizada fora do eixo industrial brasileiro até para os parâmetros atuais. O catálogo traz os textos transcritos das matérias jornalísticas em ordem cronológica que comprovam a relação do filme com personagens como o maestro paraguaio Hermínio Gimenez, o diretor francês Claude Lelouch e o cineasta Rogério Sganzerla. Com elenco e equipe técnica formada quase que completamente por moradores de Campo Grande, que nunca tinham feito cinema, Paralelos Trágicos teve grande repercussão na mídia de Campo Grande, Cuiabá e São Paulo na segunda metade da década de 1960.
No entanto, após o incêndio do Cine Acapulco, em 2000, quando a cópia original em 35 mm foi destruída, propagou-se ao longo dos anos a ideia de que o filme havia se perdido e a narrativa do desaparecimento ganhou força. O catálogo surge justamente para confrontar essa versão e demonstrar que, embora o original tenha sido perdido, Paralelos Trágicos nunca deixou de existir: a Cinemateca Brasileira preserva materiais em 35 mm do filme desde 1989 e uma cópia em 16 mm permanece sob guarda de Bernardo Lahdo.
A pesquisa também revela que enquanto o longa circulava, o prodígio Bernardo consolidava uma carreira literária marcada por títulos como Sexo em Delírio; Vício, Tuberculose e Sexo e Sexo Impetuoso, alguns deles alvo de censura durante a ditadura militar. Em 1974, aos 28 anos, tornou-se o mais jovem membro da Academia Mato-grossense de Letras.
Mais do que recuperar a história de um filme, o catálogo revela um fenômeno: Paralelos Trágicos foi acompanhado pela imprensa desde sua produção, atravessou o debate crítico de sua estreia e permaneceu como memória cultural ativa por seis décadas. A pesquisa demonstra que o longa não foi apenas exibido — foi discutido, tensionado e incorporado à história. Em 2026, quando Bernardo Lahdo completa 81 anos e Abboud Lahdo chega aos 90, o catálogo representa um gesto de restituição histórica. Depois de décadas envolto em dúvida, o filme retorna documentado, localizado e contextualizado.
Link para baixar o catálogo: https://www.matulacultural.com/
Link para o vídeo em LIBRAS: https://www.youtube.com/watch?v=6o0XaTWFG-k
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