A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) está reforçando o controle sobre o uso e a comercialização de canetas emagrecedoras irregulares, em meio ao crescimento da demanda, à popularização nas redes sociais e à pressão política em torno do tema.
Nos últimos dias, a agência adotou medidas voltadas principalmente a produtos importados do Paraguai e a medicamentos manipulados fora dos padrões exigidos. Esses itens fazem parte de um mercado paralelo aos remédios registrados no Brasil, como Ozempic (semaglutida) e Mounjaro (tirzepatida).
Segundo a Anvisa, as versões irregulares costumam ter preços mais baixos, mas apresentam riscos, incluindo casos de falsificação e qualidade inadequada. O diretor-presidente do órgão, Leandro Safatle, destacou que medicamentos sem registro não oferecem garantias de segurança, eficácia e qualidade — critérios considerados essenciais pela agência reguladora.
Entre as novas ações, está a proposta de exigir maior rigor na origem dos insumos usados por farmácias de manipulação. A medida, que deve ser votada até o fim de abril, determina que os ingredientes farmacêuticos sejam adquiridos apenas de fornecedores com Certificado de Boas Práticas de Fabricação (CBPF), reconhecido pela Anvisa ou por agências internacionais parceiras.
A agência também pretende reforçar a regra de que medicamentos manipulados só podem ser produzidos mediante prescrição individual, após identificar casos de fabricação em larga escala para abastecer clínicas.
Paralelamente, a Polícia Federal investiga irregularidades no setor. Em operações recentes, foram apreendidos medicamentos, embalagens e até aeronaves, com cumprimento de mandados em diversos estados.
Apesar de entidades médicas defenderem a proibição total das canetas manipuladas, a Anvisa afirma que a legislação permite esse tipo de produção, desde que sejam seguidas as normas sanitárias.
Bloqueio a produtos do Paraguai
Outra medida recente foi a proibição da venda e do uso de dois medicamentos fabricados no Paraguai, conhecidos como Gluconex e Tirzedral. Com isso, não é mais permitida a importação desses produtos, nem mesmo para uso pessoal.
O consumo desses medicamentos no país vizinho tem sido impulsionado por campanhas publicitárias e influenciadores, com ações voltadas especialmente ao público brasileiro.
As chamadas canetas emagrecedoras são baseadas em agonistas de GLP-1, substância que atua no controle da glicose e na sensação de saciedade. Embora indicadas para o tratamento de diabetes e obesidade, o uso indiscriminado, principalmente para fins estéticos, tem gerado preocupação entre especialistas.
Crescimento do mercado irregular
Dados oficiais apontam um aumento expressivo na circulação desses produtos. A Receita Federal apreendeu 32,8 mil unidades em 2025, frente a 2.700 no ano anterior. Somente no aeroporto de Viracopos (SP), cerca de uma tonelada de insumos irregulares foi interceptada desde o início deste ano.
Ainda segundo a Anvisa, foram importados 130 kg de tirzepatida nos últimos seis meses, quantidade suficiente para produzir milhões de doses em farmácias de manipulação.
Pressão política e debate público
As medidas da agência ocorrem em um cenário de pressão política e debate sobre o acesso aos medicamentos. Há preocupação no governo com possíveis reações negativas da população, além de risco de judicialização ou avanço do tema no Congresso.
Gestores públicos também discutem a oferta desses tratamentos no sistema público. Enquanto algumas iniciativas buscam parcerias com fabricantes, outras tentam adquirir medicamentos manipulados, o que tem gerado controvérsia.
Especialistas avaliam que a pressão tende a diminuir com a aprovação de novos produtos no Brasil. Atualmente, a Anvisa analisa diversos pedidos de registro de medicamentos com semaglutida, cujo patenteamento recente perdeu exclusividade, o que pode ampliar a oferta no mercado nacional.
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