A história de Eva Maria de Jesus, conhecida como Tia Eva, é considerada uma das mais importantes para a memória da população negra em Campo Grande. Ex-escravizada, ela conquistou a liberdade no final do século XIX e, em 1905, fundou uma comunidade que se tornaria um dos mais antigos quilombos urbanos do país.
Mais de um século depois, o território criado por ela recebeu um reconhecimento histórico. A Comunidade Tia Eva foi tombada como patrimônio cultural pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), tornando-se o primeiro quilombo do Brasil oficialmente inscrito no livro do tombo da instituição voltado para territórios quilombolas.
Origem e fundação da comunidade
Tia Eva nasceu em Mineiros e viveu parte da vida sob escravidão. Após conseguir a alforria, mudou-se para a região onde hoje está Campo Grande, acompanhada de suas três filhas.
Na nova terra, ela comprou um terreno e começou a formar uma comunidade que reunia familiares, descendentes e outros moradores. Com o passar dos anos, o local se consolidou como um espaço de convivência, fé e resistência cultural da população negra.
Reconhecida pela dedicação à comunidade, Tia Eva atuava como parteira, benzedeira, curandeira e professora, ajudando moradores da região.
Fé e tradição
Devota de São Benedito, Tia Eva construiu uma pequena igreja de pau a pique em homenagem ao santo. O templo deu origem à atual Igreja de São Benedito, que se tornou um dos principais símbolos da comunidade.
A devoção surgiu após uma promessa. Segundo relatos da tradição local, Tia Eva sofria com uma ferida na perna que não cicatrizava havia anos. Ela prometeu que, se fosse curada, construiria uma igreja dedicada ao santo e realizaria uma festa anual de agradecimento.
Depois da cura, a promessa foi cumprida e a celebração passou a fazer parte da cultura da comunidade.
Festa que atravessa gerações
A tradicional Festa de São Benedito começou em 1919 e continua sendo realizada todos os anos em maio. O evento dura cerca de dez dias e reúne missas, apresentações culturais, shows e atividades esportivas.
A celebração mantém viva a memória da fundadora e reforça a identidade cultural da comunidade quilombola.
Legado preservado
Eva Maria de Jesus morreu em 1926, mas o território criado por ela permanece ativo. Atualmente, cerca de 250 famílias vivem na comunidade e são descendentes da fundadora.
Com o reconhecimento do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, a Comunidade Tia Eva passa a integrar oficialmente o patrimônio cultural brasileiro, fortalecendo a preservação da história e da cultura afro-brasileira em Mato Grosso do Sul.
Foto: Bruna Costa Dias/Iphan








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