..::data e hora::.. 00:00:00

Comunidade Tia Eva em Campo Grande se torna o primeiro quilombo tombado do Brasil

por | mar 11, 2026 | Últimas notícias

A Comunidade Tia Eva, localizada em Campo Grande, passou a ser oficialmente reconhecida como o primeiro quilombo do Brasil tombado como patrimônio cultural pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. A decisão foi oficializada durante reunião do conselho do órgão no Rio de Janeiro e representa um marco histórico para a preservação da memória e da cultura afro-brasileira no país.

Com o reconhecimento, o instituto também publicou no Diário Oficial da União um mapa que delimita a área do território que passa a ter proteção federal. A medida garante maior preservação do espaço e fortalece a valorização da história da comunidade, que existe há mais de um século na capital sul-mato-grossense.

A Comunidade Tia Eva reúne atualmente cerca de 250 famílias descendentes de Eva Maria de Jesus, conhecida como Tia Eva, fundadora do território quilombola. A área fica na Rua Eva Maria de Jesus, nome que homenageia a mulher que deu origem à comunidade.

Para os moradores, o reconhecimento representa uma conquista construída ao longo de muitos anos de resistência e preservação cultural. Lideranças da comunidade afirmam que o tombamento garante que a história e as tradições locais continuem sendo respeitadas e transmitidas para as próximas gerações.

O pedido de tombamento foi apresentado pela própria comunidade em 2024. A partir dessa solicitação, técnicos do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional iniciaram um levantamento detalhado das referências culturais, históricas e sociais do local. Durante cerca de dois anos foram realizados estudos, entrevistas com moradores e registros das tradições que fazem parte da identidade do território.

Com base nesse material, o conselho do instituto decidiu reconhecer oficialmente a comunidade como patrimônio cultural brasileiro. O tombamento também fortalece a presença do Estado na proteção do território e abre caminho para políticas públicas voltadas à preservação cultural.

Entre os principais símbolos da comunidade está a Igreja de São Benedito, construída em 1919. O templo já era reconhecido como patrimônio histórico municipal e estadual e atualmente passa por obras de restauração.

A igreja será o centro de um novo complexo comunitário que prevê a construção de uma praça, um centro de atendimento à população e a reforma do salão de eventos. O investimento ultrapassa dois milhões de reais e a previsão é que o conjunto de obras seja concluído até o próximo ano.

Para muitos moradores, o reconhecimento nacional ajuda a dar visibilidade à história da comunidade, ainda pouco conhecida por parte da população de Campo Grande. A expectativa é que o tombamento contribua para valorizar o território, incentivar a preservação das tradições e ampliar o conhecimento sobre a presença quilombola na região.

A história da comunidade está diretamente ligada à trajetória de Eva Maria de Jesus, conhecida como Tia Eva. Nascida na cidade de Mineiros, em Goiás, ela foi escravizada ainda no século XIX e conquistou sua liberdade pouco antes da abolição da escravidão. Em 1905, mudou-se para a região onde hoje está Campo Grande, acompanhada das três filhas.

Na nova terra, Tia Eva adquiriu um terreno e iniciou a formação de uma comunidade marcada pela solidariedade e pela fé. Ela ficou conhecida por ajudar moradores da região como parteira, benzedeira, curandeira e professora. Devota de São Benedito, também construiu a primeira igreja da comunidade, que se tornaria um dos principais símbolos culturais do local.

Mesmo após a morte de Tia Eva em 1926, o território fundado por ela permaneceu vivo e segue habitado por seus descendentes. A comunidade mantém até hoje festas religiosas, tradições culturais e laços familiares que atravessam gerações.

O tombamento nacional representa não apenas uma conquista para os moradores da Comunidade Tia Eva, mas também um reconhecimento da importância histórica dos quilombos urbanos na formação cultural do Brasil e na preservação da identidade afro-brasileira.

 Foto: Divulgação/Guia Negro

0 comentários