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Canetas emagrecedoras ilegais passam a usar rotas do tráfico de drogas em Mato Grosso do Sul

por | fev 2, 2026 | Últimas notícias

O contrabando de canetas emagrecedoras em Mato Grosso do Sul passou a utilizar as mesmas rotas historicamente exploradas pelo tráfico de drogas, como cocaína e maconha. Em posição geográfica estratégica e fazendo fronteira com o Paraguai, o estado se consolidou como uma das principais portas de entrada ilegal desses medicamentos no Brasil, segundo especialistas e forças de segurança ouvidos pelo g1.

Somente em 2025, mais de 3 mil caixas, cerca de 12 mil doses de canetas emagrecedoras, foram apreendidas no estado, conforme dados da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp). Até a primeira quinzena de janeiro de 2026, outras 1,4 mil caixas, o equivalente a quase 6 mil doses, já haviam sido retiradas de circulação. A maior parte dos produtos tem origem no Paraguai.

Desde novembro de 2025, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária proibiu a entrada no Brasil de canetas emagrecedoras vindas do exterior sem registro no país. Com a mudança, a importação desses medicamentos passou a ser enquadrada como crime de contrabando, além de crime contra a saúde pública, por não haver qualquer controle sanitário sobre os produtos que entram ilegalmente no território nacional.

De acordo com autoridades, três fatores explicam o crescimento desse tipo de crime em Mato Grosso do Sul: a extensa fronteira seca com o Paraguai, o uso de rotas já consolidadas pelo tráfico de drogas e a alta procura pelas canetas emagrecedoras. A logística utilizada é praticamente a mesma adotada por organizações criminosas envolvidas com entorpecentes, o que facilita a circulação das cargas e dificulta a fiscalização.

As investigações apontam que os medicamentos saem principalmente de Pedro Juan Caballero, no Paraguai, entram no Brasil por Ponta Porã, onde não há barreiras físicas entre os dois países, e seguem por rodovias federais, estaduais e estradas vicinais até outros estados. Entre as principais vias utilizadas estão a BR-463, a MS-164 e a MS-162, todas já conhecidas pelo intenso fluxo do tráfico de drogas.

Na MS-164, considerada uma das principais rotas do narcotráfico, mais de 200 canetas emagrecedoras foram apreendidas em 17 de janeiro deste ano em um ônibus intermunicipal que fazia a linha entre Ponta Porã e Três Lagoas. Dias antes, no mesmo trecho, a polícia havia apreendido 267 quilos de maconha. Já na BR-463, em 4 de agosto de 2025, equipes localizaram 189 canetas em um veículo que vinha de Ponta Porã. Em janeiro deste ano, na mesma rodovia, uma caminhonete roubada foi interceptada transportando mais de uma tonelada de maconha. Na MS-162, apreensões de drogas e de medicamentos ilegais também ocorreram em datas próximas, reforçando o uso compartilhado das rotas.

O delegado adjunto da Receita Federal, Henry Tamashiro, afirma que parte do esquema tem início em Pedro Juan Caballero. O superintendente da Polícia Rodoviária Federal em Mato Grosso do Sul, João Paulo Pinheiro Bueno, explica que a fronteira extensa, com cerca de 1.500 quilômetros e grande parte de fronteira seca, facilita a atuação de contrabandistas e traficantes, que utilizam diversas rotas para driblar a fiscalização.

Segundo o subdiretor do Departamento de Operações de Fronteira, major Eduardo Garcia, além de abastecer cidades sul-mato-grossenses, as canetas emagrecedoras contrabandeadas seguem para grandes centros do Sudeste, como São Paulo e Rio de Janeiro, onde há grande demanda pelo produto.

O chefe da Delegacia de Repressão aos Crimes Fazendários da Polícia Federal, Anezio Andrade, destaca que antes da decisão da Anvisa era permitido trazer pequenas quantidades do medicamento para uso próprio. Com a nova norma, tanto a importação quanto a comercialização passaram a configurar crime de contrabando e crime contra a saúde pública.

As forças de segurança apontam que o aumento das apreensões está diretamente ligado ao alto lucro obtido com a venda ilegal e à facilidade de circulação pelas rotas já utilizadas pelo tráfico de drogas. Um economista ouvido pelo programa Fantástico estima que o mercado ilegal de canetas emagrecedoras vindas do Paraguai já tenha movimentado cerca de R$ 600 milhões no Brasil. No país vizinho, a venda ocorre livremente nas ruas, com estratégias de marketing informal para atrair compradores.

Além do impacto financeiro e da relação com o crime organizado, as autoridades alertam para os riscos à saúde pública. Sem controle sanitário e sem garantia de procedência, as canetas emagrecedoras ilegais podem causar efeitos adversos graves, ampliando os danos de um mercado clandestino que cresce à sombra das mesmas rotas usadas pelo tráfico internacional de drogas.

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