Por Rosildo Barcellos
Sou um contador de histórias. Caminhando pelas ruas encontrei pessoas cujas
vidas surpreenderam-me, enobreceram-me, fizeram-me rir e chorar.
Todavia,nenhuma, tocou mais, do que a que contarei hoje.
Eu havia recebido uma chamada de um pequeno prédio. Quando eu cheguei no
início da madrugada, o prédio estava escuro, com exceção de uma única lâmpada;
acesa numa janela do térreo. Assim fui até a porta e bati. “Um minuto”, respondeu
uma voz.
Uma octogenária sorridente apareceu. Olhei e percebi que toda sua mobília
estava coberta por lençóis. Não havia utensílios sobre os móveis. Eu peguei a mala
e caminhei vagarosamente para a calçada, ela ficou agradecendo minha ajuda.
Quando embarcamos, ela deu-me o endereço e pediu:
- Poderia passar pela rua Manoel Cavassa?
- Não é o trajeto mais curto – alertei-a prontamente.
- Eu não me importo. Não estou com pressa, Nenhuma pressa !
Eu olhei pelo retrovisor. Os olhos dela estavam marejados, brilhando.
Eu disfarçadamente desliguei o taxímetro e perguntei: - Qual o caminho que a Senhora. deseja que eu tome?
Nas horas seguintes circulamos por Corumbá – um município fronteiriço a
Puerto Quijarro na Bolívia.
Ela mostrou-me o edifício que havia, em certa ocasião, trabalhado; depois
passamos pelas cercanias em que ela e o esposo tinham vivido em outros tempos:
hoje um depósito de móveis, que havia sido um grande salão de dança.
De vez em quando, pedia-me para dirigir vagarosamente em frente a uma casa ou
esquina – ficava então com os olhos fixos na escuridão, sem dizer nada. Quando o
primeiro raio de sol surgiu no horizonte, ela disse de repente: - Estou pronta agora!
Viajamos, então, em silêncio, para o endereço que ela havia me dado.
Chegamos a uma casa de repouso. Dois atendentes caminharam até o táxi, assim
que ele parou. Eu abri a mala do carro e levei a pequena valise para a porta.
A senhora já estava sentada em uma cadeira de rodas. - Quanto lhe devo? – ela perguntou, pegando a bolsa.
- Nada – respondi.
- Você tem que ganhar a vida, meu jovem !
- Há outros passageiros – respondi.
Quase sem pensar, eu curvei-me e dei-lhe um abraço. Ela me envolveu
comovidamente. – Você me deu bons momentos de alegria – Qual seu nome ? - Amaral.- respondi prontamente.
Apertei sua mão e caminhei no lusco-fusco da alvorada. Atrás de mim uma porta
foi fechada. Ao relembrar, não creio que eu jamais tenha feito algo tão importante
na minha vida. Nós estamos condicionados a pensar que nossas vidas giram em
torno de grandes momentos e da busca diária de valores pecuniários. E
sinceramente, permita-me discordar! Saúde, bons relacionamentos, valorizar o
amor, a gratidão, o respeito a família e nunca esquecer o que já foi feito em nosso
favor, são caminhos para a paz.
Esta crônica é em homenagem ao Amaral. Foi Presidente do Sindicato dos
Taxistas, em Corumbá. mas que na verdade chamava-se Claudio dos Reis
Rodrigues. O ponto de táxi da fronteira Brasil x Bolívia tem seu nome, justamente
para lembrar da educação do brasileiro. Amaral, conduziu-me diversas vezes nos
momentos em que estive naquele rincão. Seu nome será lembrado como
deferência e referência a ombridade e urbanidade das pessoas que fazem a
diferença aonde estão. Entendo que bons exemplos, devem ser sempre
enaltecidos. Que a gentileza prevaleça sempre !








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